Noites de Solidão

Da cama onde estou tudo se vai partindo
Vagarosamente, abandono a mulher ao lado
Vagarosamente, recolho seu último beijo
seu último olhar,
seu último orgasmo...
a ausência agora é uma presença enorme
a ocupar todo o meu ser
A mulher ao lado me olha despossuída
Minha ausência a deixa atônita, assustada
Rígido e impessoal abandono tudo
Embarco na imaginação esquecido.
O desejo quebrado provoca incisões
O instante é mensageiro do que se opera naquele leito
O pensamento vai e volta trazendo músicas insanas
prevista pela primeira vez numa noite em solidão
Noite vermelha
quando a bruxa
debochou abertamente do seu super-homem
Reconheço-me pensando cenas divertidas
Eu enlouquecido de amor
por uma Bruxa que nem amar sabia
Eu a navegar a noite
entoando "cantes hondos" para uma
mulher-serpente
cujos olhos refletem estrelas, esmeraldas
e um sol doirado
O meu gênio se esvaindo
num tesão que ele nunca poderia entender
Na irresponsabilidade dos sonhos
cantei canções falando de um homem
que na ânsia de crescer
enterrou suas raízes tão profundamente
que teve de reinventar o próprio canto
Aquelas canções levaram-me à dissolução
por não poder suportar dor assim tão límpida.
Eu conhecia a vigilância do espírito
mas nada sabia do êxtase
por isso, deixei-me consumir no próprio fogo
amor é o fogo que me consome!
Flutuo na sua lembrança
Seu perfume me atravessa
qual som de uma campânula de cristal
arremetendo-me para o intangível
Sempre que o sofrimento me toca
escapo para a sua lembrança
Num átimo, desencadeia-se o mistério!
Sem ela não sei pensar
Contido, sem transmitir o que me assalta
esqueci-me até dos versos
sou o verso e pronto;
Mas sempre desafiei os registros!
Agora, penso de modo tão simples
que sua ausência me tritura o coração
À sua espera ouço o pulsar da vida
o passar dos mistérios.