Dalila

Foi desgraça, meuDeus!... Não!... Foi loucura
Pedir seiba de vida - à sepultura,
Em gelo - me abrasar,
Pedir amores - a Marco sem brio,
E a rebolcar-me em leito imundo e frio
- A ventura buscar.

Errado viajor - sentei-me à alfombra
E adormeci da mancenilha à sombra
Em berço de cetim...
Embalava-me a brisa no meu leito...
Tinha o veneno a lacerar-me o peito
- A morte dentro em mim...

Foi loucura!... No ocaso - tomba o astro;
A estátua branca e pura de alabastro
- Se mancha em lodo vil...
Quem rouba a estrela - à tumba do ocidente?
Que Jordão lava na lustral corrente
O marmóreo perfil?...

Talvez!... Foi sonho!... Em noite nevoenta
Ela passou sozinha, macilenta,
Tremendo a soluçar...
Chorava - nenhum eco respondia...
Sorria - a tempestade além bramia...
E ela sempre a marchar.

E eu disse-lhe: Tens frio? - arde minha alma.
Tens os pés a sangrar? - podes em calma
Dormir no peito meu.
Pomba errante - é meu peito um ninho vago!
Estrela - tens minha alma - imenso lago -
Reflete o rosto teu!. . .

E amamos - Este amor foi um delírio...
Foi ela minha crença, foi meu lírio,
Minha estrela sem véu...
Seu nome era o meu canto de poesia,
Que com o sol - pena de ouro - eu escrevia
Nas lâminas do céu.

Em seu seio escondi-me... como à noite
Incauto colibri, temendo o açoite
Das iras do tufão,
A cabecinha esconde sob as asas,
Faz seu leito gentil por entre as gazas
Da rosa do Japão.

E depois... embalei-a com meus cantos
Seu passado esqueci... lavei com prantos
Seu lodo e maldição...
... Mas um dia acordei... E mal desperto
Olhei em torno a mim. . . - Tudo deserto...
Deserto o coração...

Ao vento, que gemia pelas franças
Por ela perguntei... de suas tranças
À flor que ela deixou...
Debalde... Seu lugar era vazio...
E meu lábio queimado e o peito frio,
Foi ela que o queimou...
Minha alma nodoou no ósculo imundo,
Bem como Satanás - beijando o mundo -

Manchou a criação,
Simum - crestou-me da esperança as flores...
Tormenta - ela afogou nos seus negrores
A luz da inspiração ...
Vai, Dalila!... É bem longa tua estrada...
É suave a descida - terminada

Em báratro cruel.
Tua vida - é um banho de ambrosia...
Mais tarde a morte e a lâmpada sombria
Pendente do bordel.
Hoje flores... A música soando...
As perlas do Champagne gotejando
Em taças de cristal.

A volúpia a escaldar na louca insônia...
Mas sufoca os festins de Babilônia
A legenda fatal.
Tens o seio de fogo e a alma fria.
O cetro empunhas lúbrico da orgia
Em que reinas tu só!...

Mas que finda o ranger de uma mortalha,
A enxada do coveiro que trabalha
A revolver o pó.
Não te maldigo, não!... Em vasto campo

Julguei-te - estrela, - e eras - pirilampo
Em meio à cerração...
Prometeu - quis dar luz à fria argila...
Não pude... Pede a Deus, louca Dalila,
A luz da redenção!! ...