O Ninho da Poesia

Prefácio de Humberto Werneck
para o livro
FAREWELL,
de
Carlos Drummond de Andrade

"(...) São fiéis, as coisas
de teu escritório. A caneta velha. Recusas-te a trocá-la
pela que encerra o último segredo químico, a tinta imortal.
Certas manchas na mesa, que não sabes se o tempo,
se a madeira, se o pó trouxeram contigo.
Bem a conheces, tua mesa.
Cartas, artigos, poemas
saíram dela, de ti. Da dura substância,
do calmo, da floresta partida elas vieram,
as palavras que achaste e juntaste, distribuindo-as.
A mão passa na aspereza.
O verniz que se foi. Não. É a árvore que regressa.
(...)"

(Carlos D. de Andrade, "Indicações" - em A rosa do povo)

Nem grande nem pequeno - um escritório como qualquer outro, igual a tantos que se vêem nos apartamentos de classe média no Brasil. Mais triste do que muitos, até, com sua janela abrindo para o feio paredão do prédio ao lado. Mesa e cadeira, cadeira de balanço, máquina de escrever, quadros nas paredes, estantes cheias de livros. Nada de muito especial - a não ser o fato de que este era o escritório de Carlos Drummond de Andrade, o que vale dizer: foi ali, durante 25 anos, que se escreveu boa parte da melhor poesia brasileira deste século. Como os poemas deste Farewell, que ele deu por concluído e ali deixou, embalado numa pasta de cartolina azul-claro, pouco antes de morrer, a 17 de agosto de 1987.

O ninho do poeta era esse cômodo prosaico, um dos quatro quartos do apartamento 701 do Edifício Luiz Felipe, na rua Conselheiro Lafaiette, em Ipanema, onde morava, com a mulher, Dolores, desde 1962. Até 1984, quando se libertou da obrigação de escrever crônica três vezes por semana, Drummond costumava aboletar-se em seu refúgio pelas 9 da manhã, já com o café tomado e os jornais lidos. Mesmo sem crônica, não tardava a se fazer ouvir o tec-tec da máquina onde ele escrevia praticamente tudo. Durante muitos anos, uma Olivetti Studio cinza, depois uma Remington bege. (Houve, ainda, nos anos 70, o brevíssimo interregno da máquina elétrica, dessas de bolinha, que Dolores lhe deu num aniversário e com a qual não houve jeito de se acertar. A modernidade foi repassada a Maria Julieta, a filha única, e foi acabar em Buenos Aires, nas mãos de Manolo, o poeta e advogado argentino Manuel Graña Echeverry, genro de Drummond.)

Era sagrada, a certa altura da manhã, a pausa para a xícara de café e a fatia de queijo-de-minas que Dolores lhe trazia. O almoço, pontualmente às 12:30, interrompia a função, em geral retomada depois do jantar, servido às 19:30.

A máquina de escrever ficava sobre a velha mesa de madeira ocre, com quatro gavetas de cada lado e uma no centro, dividindo o espaço com pequenos objetos: pesos de vidro para papéis, uma escultura metálica em forma de pacotinho, um copo de louça com paisagem da Itabira do poeta. Outra mesinha, bem à mão, era ocupada pelo telefone e alguns dicionários. Os três netos - Carlos Manuel, Luis Maurício e Pedro Augusto - lembram-se de que, de quando em quando, Carlos, como sem maior cerimônia o chamavam, pegava uma gilete e, com a entusiástica ajuda dos garotos, punha-se a raspar o tampo da mesa, removendo sinais de tinta deixados por sua Parker 51 e pela caneta dourada que herdou do pai. Com a passagem dos anos e da lâmina, a madeira acabou por ganhar cicatrizes e sinuosidades.

Cadeiras Drummond teve multas, nenhuma delas de pedigree ou especial estima. Sentado à mesa, ele tinha à frente uma estante de livros - havia duas no escritório. A parede branca às suas costas foi durante muitos anos dominada por um nu feminino do pintor italiano Enrico Bianco, seu amigo, assistente de Candido Portinari; ladeando esse quadro, um retrato de Dolores por outro artista amigo, o russo Dmitri Ismailovitch, e fotos do coronel Carlos de Paula Andrade, pai do escritor. Era outra parede havia uma cena de tourada, presente com dedicatória do poeta espanhol Rafael Alberti. Um dia Drummond resolveu transferir a obra de Bianco para o corredor, e o neto Pedro Augusto quis saber por quê. Não ficava bem, explicou Carlos, deixar entre a mulher e o pai uma senhorita em pêlo.

Para papear com o avô, volta e meia um dos meninos vinha empoleirar-se na vetusta cadeira de balanço que ficava a um canto, inspiradora talvez do título de um de seus livros de crônicas. Era férias no Rio de Janeiro, os netos argentinos receberam dele o que em seu país se chama "bandera libre", no caso permissão para mexer em tudo, e só quem se preocupava com tamanha franquia era a avó, temerosa de que sovertessem a papelada de Carlos.

E o que não faltava ali eram papéis, exemplarmente organizados em pastas de cartolina. As centenas de cartas, por exemplo, que ele trocou com a filha nas três décadas e meia em que viveram separados, de 1949 a 1983, ele no Rio, ela em Buenos Aires. Entre essas pastas, nos armários existentes na parte de baixo das estantes, havia uma relíquia que não impressionaria apenas os garotos: o envelope em que o pai do poeta guardou a chave do caixão de sua mãe, Rosa. Inesquecível, para os netos, como inesquecível era também o papelzinho manuscrito com "Recordações da Mamãe" que o avô carregou na carteira até o fim: "1. Não guardes ódio de ninguém; 2. Compadece-te dos pobres; 3. Cala os defeitos dos outros."

Era também nessas pastas ordinárias, em tons claros de azul ou verde, que Carlos Drummond de Andrade organizava seus originais e os entregava à editora. Na capa, com caneta, escrevia o título do livro, nisso pondo às vezes amostras de seu humor e de sua aptidão para o desenho. No caso de O amor natural, por exemplo, ao escrever o título na capa o poeta fez com que o artigo O, colocado em cima do primeiro A, sugerisse uma auréola de santo. Tinha grande gosto nessas travessuras gráficas, como os pequenos desenhos, as divertidas garatujas que estampava em seus cartões de Natal para a mulher.

As últimas obras que ele entregou pessoalmente à editora foram Moça deitada na grama, crônicas, e O avesso das coisas, aforismos, ambas publicadas postumamente, em 1987 e 1988. Também póstuma, a coletânea Auto-retrato e outras crônicas, de 1989, com textos inéditos em livro, não teve, contudo, a sua mão - foi organizada pelo escritor Fernando Py.

Os originais de Poesia errante (1988) e O amor natural (1992), além de Farewell, foram encontrados no escritório do poeta. O primeiro não estava inteiramente concluído e a forma final foi estabelecida por Pedro Augusto Graña Drummond e pela amiga Lygia Fernandes. Quanto a O amor natural, é um livro que Drummond preferiu não ver publicado em vida - bem-humorado, dizia haver perdido "o bonde da pornografia", mesmo sabendo que o erotismo de seus versos passava multo ao largo de qualquer vulgaridade.

Farewell, a que velo incorporar-se o poema Arte em exposição, inicialmente destinado a constituir livro autônomo, chegou a ser finalizado pelo autor, que acondicionou, numa pasta azul-claro, as folhas soltas dos originais, datilografadas por ele e por Lygia Fernandes. Como no caso de O amor natural, mas não pela mesma razão, optou por adiar o lançamento para depois de sua morte. O título não deixa dúvida de que quis fazer dessa coletânea o fecho de sua produção poética.

Farewell inclui aqueles que, segundo Pedro Augusto, seriam os dois últimos poemas escritos pelo avô. Os 27 filmes de Greta Garbo foi inspirado num livro que lhe presenteou o neto Luís Maurício, conhecedor de sua incurável paixão pela mitológica atriz sueca. Elegia a um tucano morto, por sua vez, é homenagem ao tucano "Picasso", que Pedro ganhou da mulher, Adriana, e que morreu ingloriamente, depois de ter sido bicado por uma galinha. O derradeiro escrito de Drummond, porém, informa o neto, não foi este, e sim um texto em prosa, feito para ele e sem pretensão literária: um projeto para uma galeria de esculturas ambulante. Maria Julieta começou a escrevê-lo mas, com a agravamento da doença que a afligia havia anos, pediu ao pai que o terminasse. Ficou pronto em julho de 1987, um mês antes da morte de Maria Julieta, em 5 de agosto, e seis semanas antes do infarto que, despovoando o escritório da rua Conselheiro Lafaiette, levou o maior poeta brasileiro deste século.

 


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