Amor Incondicional

Numa tarde chuvosa de verão, ela apareceu em minha vida,
toda molhada e encolhida, lá estava quando abri o portão,
quase desfalecida, pareceu nem notar a minha presença,
sem pensar, condoído da sua sorte, a recolhi em meu lar,
Tratei seus pés feridos de tanto andar, mitiguei sua sede,
saciei sua imensa fome de vários, sei lá quantos, dias,
e enquanto, ávida, comia, me olhava meio desconfiada,
quanta angustia e pavor, se exprimiam naquele olhar..
Alguma coisa, que ela portava em seu pescoço esguio,
deixava entrever que ela tinha tido, uma vida se não feliz,
pelo menos abastada, e mais à noite, quando já banhada,
não deixava,a menor lembrança, de quando chegara...
Seu corpo, agora limpo e perfumado, era elegante, bem feito,
as pernas esguias eram bem proporcionais à sua estatura,
e completavam um belo quadro físico, tudo quase perfeito,
exceto, pela magreza acentuada, era a própria juventude...
Sentou-se e encolheu-se toda em um canto da sala de estar,
eu me aproximei, e sentei-me, devagarinho, bem a seu lado,
e, num gesto de puro carinho, toquei e acariciei sua cabeça,
e ela cansada e agradecida, repousou-a, sobre minhas mãos...
A partir desse instante, nasceu entre nós, um crescente e
profundo sentimento, de amizade, de companheirismo,
e brotou o amor puro, misto de fraternal, filial e paternal,
que deixava entrever o inicio de uma duradoura relação...
Tornamo-nos inseparáveis, para onde quer eu fosse,
Me acompanhava, na rua, no carro, no andar, no lazer,
dia e noite, sempre ao meu lado, sempre fitando-me,
com seus olhos carentes, sempre a implorar carinho...
Ah!Minha Menina querida...,era assim que eu a chamava,.
Menina..., nome que brotou nos meus lábios, naturalmente,
desde quando aquela desconhecida surgiu à minha frente,
e num relance, passou a ser, a razão, do meu solitário
viver...
Foram muitos anos, em que nós dois, contínuadamente,
vivemos, sempre, à dividir, todos os nossos momentos,
tanto na alegria e na tristeza, ou na riqueza e na pobreza,
um guardando ao outro, como se precioso tesouro fosse...
Foram anos de amor sincero e totalmente desinteressado,
de dedicação profunda e extremada, onde cada um daria,
a própria vida, se preciso fosse, sem vacilar, um segundo,
para defender, incondicionalmente, um amigo verdadeiro....
Sempre juntos, quando saíamos, éramos motivo de admiração,
Os amigos riam e diziam, que éramos, um a sombra do outro,
e que nunca haviam visto, tamanha afinidade e tanta afeição,
para nos entendermos, bastavam, o olhar e um aceno de mão...
Mas, o tempo, inexorável, fez chegar a hora final, e num repente,
seu coração, sempre tão gentil, alegre, feliz e generoso, falhou,
um derradeiro suspiro, e ela partiu, ficando em meus braços, frio,
o seu corpo inerte, e em meu peito, um surdo grito de dor...
Dor, que num instante, trouxe de volta, minha antiga solidão,
desta vez, impregnada, de uma angustiosa sensação de perda,
como se de mim, arrancado tivessem, de vez, a melhor parte,
e os restos, enfim, tão maltratados, abandonados à própria sorte...
Revolta, amargura e impotência, contra tudo e contra todos,
e, num desvairado momento, até contra Deus, por ter tirado,
o último e abençoado alento, que mantinha acesa a minha vida,
que me dava forças para enfrentar, o que me fora destinado...
Agora, passado o tempo, ainda sinto falta de seu olhar meigo,
da verdadeira devoção por mim, da alegria pelo nosso passear,
da impaciência que demonstrava, indo de um lado para outro,
enquanto esperava acordada, altas horas, o fim do meu labor...
Sem dúvida, a melhor, mais fiel e dedicada amiga que tive,
Ela, talvez tenha sido, a incorporação, do meu Anjo Protetor,
trouxe, Luz, Paz e Alegria, nos piores momentos, à minha vida,
me fez esquecer a ira, a mágoa, a tristeza, o desencanto e a dor,
Estas palavras singelas, mal exprimem, toda a minha afeição,
por aquela que foi, entre todas, a grande paixão da minha vida,
paixão pura, inocente, angelical, entre duas criaturas de Deus,
Que sendo tão diferentes, eram, ao mesmo tempo, tão iguais...
Eu estava, assim, à divagar saudoso, quando ouvi, um alvoroço,
pareciam risadas e latidos de festas; levantei-me em sobressalto,
louca esperança, agitando o coração: Seria ela? Será que Deus,
na sua infinita piedade, havia me agraciado com tal milagre?
Naquele delírio, olho pela janela, vejo duas silhuetas saltitantes,
correndo alegremente, parecia que vinham em minha direção,
alucinado de alegria, também corro, exultante, ao seu encontro, os passos, como que embriagados, por tão incontida emoção...
E quando, o sol iluminou, aquele rosto, de formosa mulher,
tão linda e sorridente, a brincar com seu cão, na correntinha,
Duas lágrimas rolaram pelo meu rosto, tamanha a decepção,
Não, oh! Deus, não era minha Menina, a minha Cachorrinha...