Livro do Desassossego
ÁTICA, LISBOA, 1982

Volume I

Omar Khayyam
Omar tinha uma personalidade; eu, feliz ou infelizmente, não tenho nenhuma. Do que sou numa hora na hora seguinte me separo; do que fui num dia no dia seguinte me esqueci. Quem, como Omar, é quem é, vive num só mundo, que é o externo; quem, como eu, não é quem é, vive não só no mundo externo, mas num sucessivo e diverso mundo interno. A sua philosophia, ainda que queira ser a mesma que a de Omar, forçosamente o não poderá ser. Assim, sem que deveras o queira, tenho em mim, como se gossem almas, as philosophias que critique; Omar podia rejeitar a todas, pois lhe era externas, não as posso eu rejeitar, porque sou eu. (p.27)

Amo, pelas tardes demoradas de verão, o socego da cidade baixa, e sobretudo aqquele socego que o contraste accentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenakl, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos caes quedos - tudo isso me comforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjuncto. Vivo uma era anterior áquela em que vivo; goso de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os d'elle, mas a substancia egual à dos versos que foram d'elle.

Por alli arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a d'essas ruas. De dia ellas são cheias de um bulício que não quere dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quere dizer nada. Eu de dia sou nullo, e de noite sou eu. Não há differença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha, ante o que é a essencia das cousas. Há um destino egual, porque é abstracto, para os homens e para as cousas - uma designação egualmente indifferente na algebra do mysterio.

Mas ha mais alguma cousa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma cousa externa, que não está em meu poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em cousas, não para me substituirem a realidade, mas pare se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fóra, como o electrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que cousa, que se destaca, toada arabe, como um repuxo subito, da monotonia do entardecer!
Passam casaes futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são donas das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas somnanbulizam em molhas ora muito ruidosos, [?] ora mais que ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automoveis alli a esta hora não são muito frequentes; [...] No meu coração ha uma paz de angustia, e o meu socego é feito de resignação.

Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu sentir, [...] quando o accaso deita pedras, echos de vozes incognitas - salada collectiva da vida.

O cansaço de todas as illusões e de tudo o que ha nas illusões - a perda d'ellas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdel-as, a magoa de as ter tido, a vetonha intellectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.

A consciencia da inconsciencia da vida é o mais antigo imposto à intelligencia. Ha intelligencias inconscientes... brilhos do espírito, correntos do entendimento, vozes [...] e philosophias que tem o mesmo entendimento que os reflexos corporeos, que a gesão que o figado e os rins fazem de suas secreções. (P.71)

Se algum dia me succeder que, com uma vida firmemente segura, possa livremente escrever e publicar, sei que terei saudades d'esta vida incerta em que mal escrevo e não publico. Terei saudades, não só porque essa vida fruste é passado e vida que não mais terei, mas porque ha em cada espécie de vida uma qualidade própria e um prazer peculiar, e quando se passa para outra vida, ainda que melhor, esse prazer peculiar é menos feliz, essa qualidade própria é menos boa, deixam de existir, e ha uma falta.

Se algum dia me suceder que consiga levar ao bom calvaria a cruz da minha intenção, encontrarei um calvario nesse bom calvario, e terei saudades de quando era futil, fruste e imperfeito. Serei menos de qualquer maneira.

Tenho somno. O dia foi pesado de trabalho absurdo no escriptorio quasi deserto. Dois empregados estão doentes e os outros não estão aqui. Estou só, salvo o moço longínquo. Tenho saudades da hypothese de poder ter um dia saudades, e ainda assim absurdas.
Quasi peço aos deuses que haja que ma guardem aqui, como num cofre, defendendo-me das agruras e tambem das felicidades da vida. (p. 257)

Volume II

Se houvesse na arte o mistér de aperfeiçoador, eu teria na vida (da minha arte) uma funcção...

Ter obra feita por outrém, e trabalhar só em aperfeiçoal-a. Assim, talvez, foi feita a Ilíada...
Só o não ter o esforço da creação primitiva!

Como invejo os que escrevem romances, que os começam e os fazem, e os acabam! Sei imaginal-os, capitulo a capitulo, por vezes com as phrases do dialogo e as que estão entre o dialogo, mas não saberia dizer no papel, esses sonhos de escrever, [...]

pag. 96Como todo o individuo de grande mobilidade mental, tenho um amor organico e fatal à fixação. Abomino a vida nova e o logar desconhecido.

pag. 128Viajar? Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no comboio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre eguaes e sempre differentes, como, afinal, as paisagens são.

Se imagino, vejo. Que mais faço eu se viajo? Só a fraqueza extrema da imaginação justifica que se tenha que deslocar para sentir.

"Qualquer estrada, esta mesma estrada de Entepfuhl, te levará até ao fim do mundo". Mas o fim do mundo, desde que o mundo se consummou dando-lhe a volta, é o mesmo Entepfuhl de onde se partiu. Na realidade, o fim do mundo, como o principio, é o nosso conceito do mundo. É em nós que as paisagens teem paisagem. Porisso, se as imagino, as crio; se as crio, são; se são, vejo-as como ás outras. Para que viajar? Em Madrid, em Berlim, na Persia, na China, nos Polos ambos, onde estaria eu senão em mim mesmo, e no typo e genero das minhas sensações?

A vida é o que fazemos d'ella. As viagens são os viajantes. O que vemos, não é o que vemos, senão o que somos. (pag. 133)

Viagem nunca feita
E assim escondo-me atraz da porta, para que a Realidade, quando entra, me não veja. Escondo-me debaixo da meza, d'onde subitamente, prego sustos à Possibilidade. De modo que desligo de mim como aos dois braços de um amplexo, os dois grandes tédios que me apertam - o tédio de poder viver só o Real, e o tédio de poder conceber só o Possível.
Triunfo assim de toda a realidade. Castellos de areia, os meus triunphos?... De que cousa essencialmente divina são os castellos que não são de areia?

Como sabeis que, viajando assim, não me segui [?] obscuramente?

Infantil de absurdo, revivo a minha meninice, e brinco com as ideias das cousas como com soldados de chumbo com os quaes eu, quando menino, fazia cousas que embirravam com a idéa de soldado.

Ebrio de erros, perco-me por momentos de sentir-me viver. (pag. 145)

Não desembarcar não tem caes onde se desembarque. Nunca chegar implica não chegar nunca. (pag. 145)

O sagrado instincto de não ter theorias...(pag. 156)

A mais vil de todas as necessidades - a da considencia, a da confissão. É a necessidade da alma de ser exterior.

Confessa, sim: mas confessa o que não sentes. Livra a tua alma, sim, do peso dos seus segredos, dizendo-os; mas ainda bem que o segredo que dizes, nunca o tinhas dito. Mente a ti próprio antes de dizeres essa verdade. Exprimir-se é sempre errar. Sê consciente: exprimir seja, para ti, mentir.(pag. 193)

Omar Khayyam
O tedio de Khayyam não é o tedio de quem não sabe o que faça, porque na verdade nada póde ou sabe fazer. Esse é o tedio dos que nasceram mortos, e dos que legitimamente se orientam para a morphina ou a cocaina. É mais profundo e mais nobre o tedio do sabio persa. É o tedio de quem pensou claramente e viu que tudo era obscuro; de quem mediu todas as religiões e todas as philosophias e depois disse, como Salomão: "Vi que tudo era vaidade e afflicções de animo", ou como, ao despedir-se do poder e do mundo, outro rei, que era imperador, nelle, Septimio Severo: "Omnia fui, nihil..." Fui tudo; nada vale a pena".
A vida, disse Tarde (1), é a busca do impossível atravez do inutil; assim diria, se o houvesse dito, Omar Khayyam.

De ahi a insistencia do persa no uso do vinho. Bebe! Bebe! é toda a sua philosophia practica. Não é o beber da alegria, que bebe porque mais se alegre, porque mais seja ella mesma. Não é o beber do desespero, que bebe para esquecer, para ser menos elle mesmo. Ao vinho junta a alegria a acção e o amor; e há que reparar que não há em Khayyam nota alguma de energia, nenhuma phrase de amor. Aquella Sàki, cuja figura gracil entrevista surge ( mas surge pouco) nos rubayat, não é senão a "rapariga que serve o vinho". O poeta é grato à sua esvelteza como o fôra à esvelteza da amphora, onde o vinho se contivesse.

A alegria falla, do vinho, como o Deão Aldrich:...
A philosophia practica de Khayyam reduz-se pois a um epicurismo suave, esbatido até ao mínimo do desejo de prazer. Basta-lhe ver rosas e beber vinho. Uma brisa leve, uma conversa sem intuito nem proposito, um pucaro de vinho, flores, em isso, e em não mais do que isso, põe o sábio persa o seu desejo maximo. O amor agita e cansa, a acção dispersa e falha, ninguem sabe saber e pensar embacia tudo. Mais vale pois cessar em nós de desejar ou de esperar, de ter a pretensão futil de explicar o mundo, ou o proposito estulto de o emendar ou governar. Tudo é nada, ou, como se diz na Anthologia Grega, "tudo vem da sem-razão", e é um grego, e portanto um racional, que o diz.

(1)Gabriel Tarde, sociólogo francês do séc. XIX. (pág. 208)

O mundo exterior existe como um actor num palco: está lá mas é outra cousa. (pag. 238)

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intellectual da emoção, distincta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuil-o em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida a acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se fórma a obra de arte. Assim, há dois typos de artista: o que exprime o que não tem, e o que exprime o que sobrou do que teve. (pag. 247)

Esthetica do Desalento
Já que não podemos extrahir belleza da vida, busquemos ao menos extrahir belleza de não poder extrahir belleza da vida. Façamos da nossa fallencia uma victoria, uma cousa positiva e erguida, com columnas, magestade e aquiescencia espiritual.

Se a vida [não] nos deu mais do que uma cella de reclusão, façamos por ornamental'-a, ainda que mais não seja, com as sombras de nossos sonhos, desenhos e côres/mixtas/esculpindo o nosso esquecimento sob a parada exterioridade dos muros.
Como todo o sonhador, senti sempre que o meu mistér era crear. Como nunca soube fazer um esforço ou activar uma intenção, crear coincidiu-me sempre com sonhar, querer ou desejar, e fazer gestos com sonhar os gestos que desejaria poder fazer.(pag. 264)

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