Absolutamente Estulto

Não sei; presumo.
A certeza é tirana;
sigo no rumo
da faina humana.

Vou em erro
e nele aprumo
o equilíbrio débil
onde me fundo.

A ciência é vã
e a fé inútil,
no absurdo viés
do absoluto.

No sonho, ardo
fogo sem chamas,
de sina e rimas
a mim estranhas.

Assim cindido,
caminho trôpego;
cingindo signos,
fingindo esforço.

Lacero verbos
cerzindo velas,
velando ondas;
maré de sangue.

Na retaguarda
do movimento,
atado ao leme,
sou timoneiro.

Peixes voam,
cordeiros piam;
recolho espinhos;
planto alvoradas.

É clara a noite,
é negro o dia;
cuspo na boca
da namorada.

Não tenho norte;
a sorte é morte;
morro de fome
de madrugadas.

E nada tendo
de mais estulto
para brincar;
deixo estar.