Também José

À Drummond

I.

Vivemos no concreto
sem comer nada natural
sem beber nada natural
sem ser natural
e querendo preservar a natureza...

Sempre suo se saio de casaco.
(Se não uso, sinto frio...)
E, com vergonha de tirá-lo,
quase pingo e assobio.

Mas dentro
de minha casa
não dá pra ver a rua.

Só a lua:
deserto flictz na escuridão do espaço.
E sinto então a tal ausência tua...

Viva a modernidade!
Comprei um celular
para quando eu sair
ser ferido diariamente
com seu não-tocar.

A arte de amar ainda está longe...
Mas já sei procurar no longe
para poder não achar.

Não tenho enzimas
para assimilar
a falta:Se hoje beijo
e amanhã não beijo
já sei que a segunda-feira
não será a mesma.

É, também sou José,
calvo e míope,
avesso a multidões
curvado, orgulhoso
e sozinho com meus botões...

Mas quero asas e luz
quero ser o centro das atenções
quero ser amado nas vastidões...

- Quero?

Queria querer as coisas simples,
que também não tenho...

No fundo,
o que parecia vôo,
era o sonho
da borboleta
presa
na teia
atrás
da tela.

(Constato
que passei a vida
tentando ser
e não ser
Drummond.)

II.

Eu te amaldiçôo!

Te condeno
a assistir com pressa
atrás de cimento, tijolos e grades
num canto, numa quina decorada
através duma tela crua
a vida na esquina,
para fugir da tua.

Eu te proíbo a estrada!

Crerás em anjos e gnomos, mas
te a-c-o-s-t-u-m-a-r-á-s
e não farás nada
contra tanta morte, fome, roubo
e toda sorte de coisa errada.

Te habituarás também
ao canto dos poucos pássaros restantes
na cidade grande
e, assim, deixarás de ouvi-los.

Respirarás o poluído ar
que uma máquina te condiciona
e a regularás, sorrindo
contente por controlar algo em teu destino.

O sol nascendo
ou morrendo
nem imaginarás.
(não haverá tempo...)

Os poucos amigos
que não te traírem
sairão de tua vida.

Erguerás muros,
onde deverias abrir portas
e pelas janelas destrancadas e tortas
mãos carinhosamente te darão murros.

Não suportarás mais
o silêncio,
pois através dele é que ouvirás
tua solidão.

Então celebrarás a vida
bêbado
em locais barulhentos
e cheios de estranhos.

Terás um sono agitado
e um emprego inútil e sofisticado
que te mantenha pobre, ocupado, vendado
e preocupado
por poder facilmente ser substituído ou dispensado.

Eu te amaldiçôo:
não lembrarás de teus sonhos!

Buscarás sempre
o que não tens
e nunca terás
o que buscas.Eu te condeno
a fugir para sempre
da vida!E quando, extenuado,
estenderes a mão
e pedires perdão
Deus e eus cuspiremos em tua face.

III.

O meu sonho
foi bem grande:
em minha casa
em minha cama
estava Anne.

E minha felicidade radiava...

Não porque Anne estava,
mas porque Anne chorava...