Exégese em Pessoa

O objecto primeiro da exégese de Pessoa não foi uma poesia múltipla, mas a relação dessa múltipla poesia com os seus míticos (e reais) autores, o que mergulhou toda a crítica numa miragem criadora de miragens, fonte de uma perplexidade insolúvel.

O que foi tomado realmente sério e isto perpetuará até ao juízo final o sorriso mudo do Poeta, não foi a silenciosa autonomia dos poemas no seu conjunto com o jogo que entre si constituem, mas Alberto Caeiro e Reis e Campos, considerados como autores reais dos poemas que Pessoa a justo título lhes atribuiu. Como autores reais seriam dotados de uma personalidade e de uma vocação cuja coerência se devia exprimir nos poemas que cada qual subscreve.

Daí nasceu um teatro em segundo grau (personalizando na pura arbitrariedade um "drama em gente", assim deslocado para sempre do seu centro próprio), convertendo os os autores fictícios em criadores de poemas quando só os poemas são os criadores dos autores fictícios.

As biografias imaginárias (mas de modo algum arbitrárias), prolongam o acto criador dos poemas, com ele se relacionam mas dele se destacam como leitura desses poemas já definitivamente fora do seu criador.

È um segundo estádio de distanciamento em relação ao que deu origem aos poemas -Caeiro, Reis, Campos e por isso mesmo em cada um dos heterónimos não pode ser utilizado como objectivação comoda da consciência criadora dos poemas, servindo como serviu para julgar ou compreender os poemas na sua luz póstuma e fatalmente distinta deles como jogo sobre eles que é. Daí se infere (e Casais Monteiro estabelece essa inversão de relações escrevendo que os retratos de Caeiro, Reis e Campos foram feitos para as obras e não estas para aqueles).

A ficção em segundo grau que são os poemas que levam o nome deles tem a consistência necessária para relançar uma questão na aparência superada.

Há só um Poeta, autor de poemas de aparência diversa que como tais devem ser tomados e compreendidos - esses heteronimos não têm outra realidade que a poesia que são.
Adaptando esta postura não teríamos que entrar no próprio jogo de Pessoa, emprestando aos diversos mundos poéticos subscritos por Caeiro, Reis, Campos, esse genero de autonomia poética ,que o seu criador ironicamente lhes atribui.

Bastaria pois tratar cada um desses poetas como é hábito, tratar as fases ou maneiras diferentes tantas vezes inconciliáveis de muitas poetas que nunca pretenderam ser vários.

Desta forma, não compreenderíamos os mundos poéticos que são Caeiro, Reis, Campos, em que uma dimensão de precedência antológica e de algum modo de ordem temporal e por isso irreversível comanda e organiza do interior o sistema inteiro.

A crítica apercebeu-se que não pode haver uma leitura autônoma de cada uma dessas manifestações heteronímicas.

Os heterónimos são a totalidade fragmentada . Por isso, não têm leitura individual, mas também não possuem dialética senão na luz dessa totalidade de que não são partes, mas plurais e hierarquizadas maneiras de uma única e decisiva fragmentação.

A totalidade fragmentada que os heterónimos são não é uma quimera destinada a introduzir coerência num "puzzle" - é a poesia de Pessoa anterior ao surgimento de Caeiro, Campos e Reis.

"A génese" da heteronímia é que nos conduz dos textos - Pessoa anteriores à criação heterónima aos textos heterónimos. Que nos conduz dos primeiros aos segundos; mas igualmente nos re-conduz dos segundos aos primeiros.

As ficções não são um expediente mas a conversão ao mesmo tempo natural e inconsciente do plano psicológico em plano mítico.

A poesia ortónima Autopsicografia confirma o absurdo no plano supremo da arte, pela indentificação do fingir com o exprimir.

Ricardo Reis escrevera : "Estás só. Ninguém o sabe.Cala e finge/Mas finge sem fingimento/Nada esperes que em ti já não existe". Que significará : " finge sem fingimento"? Recordemos: " fingir é conhecer-se".Quer dizer: todo o conhecimento não passa de fingimento. Ou ainda: não há uma ordem de verdade no mundo: "no plano da afectividade a maioria da gente sente convencionalmente, embora com a maior sinceridade humana"; no plano do entendimento, "pela ciência aperfeiçoamos em nós o nosso conceito ou ilusão do mundo". E assim como a "matemática" é uma linguagem perfeita, mais nada, assim também "a arte é uma matemática sem verdade".

Fingir-sem fingimento, é , pois ,aventurar-com-lucidez-normal, ou seja com vista a uma "linguagem perfeita".

Quer dizer: "fingir-sem-fingimento" é a sequência natural do tudo vale a pena quando a alma não é pequena, isto é, quando atenta "à importância misteriosa do existir".

Com mais propriedade, portanto: " fingir-sem -fingimento é aventurar com intelígivel "sinceridade metafísica ,dado que o conhecer a que este fingir simula" opôr-seé tão "convencional", como a sinceridade de há pouco.

Reciprocamente, exprimir é fingir também.

Na primeira quadra da Autopsicografia, Ricardo Reis escreve:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Se substituirmos o verbo "fingir" pelo verbo "exprimir", a quadra não fará senão repetir este lugar comum: pelo dom poético logra-se transmitir sentidamente a dor sentida.

Um perfeito domínio desse dom poderia conceder ao poeta o privilégio de exprimir (fingir) também satisfatoriamente a dor que não sente.

Da mesma forma, a dor sentida não-convencional (a dor fingida - sem fingimento) poderá transfigurar-se em termos de convenção.

Pois que é a linguagem em geral e a artística em particular, senão convenção? Pobre poeta "estás só. Ninguém o sabe. Cala e finge". Que é já de si a dor que "sente" senão convenção? Assim, qual será mais verdadeira: a dor que transmite pelo fingimento poético, julgando senti-la, ou a que por ele ressente julgando fingi-la?

E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele tem
Mas só a que eles não têm

Entre o leitor (o critíco) e a obra se interpõe por vezes não um espaço translúcido, mas a refração de sucessivas leituras, que é preciso antes demais atravessar para nos tornarmos disponíveis a um primeiro olhar virgem. "A versão primeira duma leitura deve poder ser a sua versão última". Eis o que se passa com a poesia de Fernando Pessoa.

Só a intuição penetrante de alguns critícos que eram também poetas (Casais Monteiro, Jorge de Sena e Octávio Paz) lhes permitiu apontar o essencial: o estudo da linguagem ou antes das linguagens poéticas de Pessoa, quer ao nível da estrutura global da obra, quer da estrutura específica de cada heterónimo.

È no plano da linguagem poética ,que se encontra a génese e a estrutura da obra dos heterónimos, quer através dos seus poemas, quer pelas reflexões estéticas e critícas que o poeta escreveu.

Sobre Ficções do Interlúdio (título que projectava publicar a poesia heterónima) Pessoa escreve: "Nos autores das Ficções dos Interlúdios (os heterónimos) não só as idéias e os sentimentos que se distinguem dos meus: a mesma técnica de composição, o mesmo estilo é diferente do meu. Aí cada personagem é criada integralmente diferente e não apenas diferentemente pensada. Por isso, nas Ficções do Interlúdio predomina o verso. Em prosa é mais difícil de se outrar".

O que tem de específico em cada um dos heterónimos , é oque o poeta chama "o estilo" ou o que se pode designar por estrutura da linguagem poética.

Só em verso se consegue a plena potencialidade de criação heteronímica.

" A simulação é mais fácil, até porque mais espontânea , em verso".

Em poesia pode dizer-se que o significante cria o seu significado (sendo ao mesmo tempo dele criação), ou seja , o significante é o seu significado.

A análise temática para a apreensão da poesia de Pessoa, só toma dimensão enquanto integrada na análise da linguagem dos heterónimos.

O carácter "dramático" da sua poesia (aquilo a que chamou " o drama em gente"), concentra a hipótese de um drama da personalidade psicológica (os desdobramentos da personalidade) e não sobre a natureza dramática da própria poesia.

Pessoa escreve na Presença ."Forma cada uma delas (individualidades), uma espécie de drama; e todas elas juntas formam outro drama".

Daqui se infere a sobreposição de dois tipos de drama: um constituido pela obra de cada heterónimo,outro pelo conjunto da obra heteronimica - um drama em poemas e um drama em poetas.

O drama reside no diálogo das linguagens poéticas no interior da obra( das obras) dos heterónimos que é acompanhado de um diálogo entre linguagens critícas.

Segundo José Augusto Seabra" há em Pessoa uma transferência da dramaticidade para o lirismo, do " poeta dramático" para os poetas líricos, que são afinal os heterónimos

Segundo Pessoa, da poesia lírica, caracterizada pelo subjectivismo do sentimento e da expressão, até à poesia dramática, haveria uma progressiva despersonalização" do temperamento" e do "estilo do poeta".

Os heterónimos aparecem então não como personagens de um drama poético ,mas imples personagen(s), sem -drama - porque cada um é poeta , o "drama em gente", traduz-se num drama em poetas.

Como Poeta dramático, Pessoa cria os heterónimos e estes " como outros poetas", criam as respectivas obras poéticas.

Na poesia de Pessoa, o "fingimento" dos heterónimos enquanto verdadeiros sujeitos poéticos assume, (numa perspectiva psicanalítica), um descentramento do sujeito.

"A multiplicidade dos sujeitos poéticos - o poetodrama- é aqui a condição de realização do lirismo dramático - do poemodrama. Entre uma poesia pessoal e subjectiva em crise e a poesia impessoal e objectiva de que falava Mallarmé, estamos com Pessoa perante uma poesia multipessoal, multisubjectiva".

Segundo José Augusto Seabra, é esta a sua verdadeira revolução.

O que caracteriza Pessoa é a pluralidade na própria poesia - pluralidade repetidamente referida como fundamento da concepção do mundo dos heterónimos. Da pluralidade do real, Pessoa faz decorrer a pluralidade dos sujeitos, porque a indentidade para Pessoa supõe a alteridade.

O fenónemo heteronímico assume-se não como um processo, mas como uma visão ontológica da poesia enquanto manifestação plural do ser .

A pluralidade das linguagens corresponde a uma pluralidade de leituras possíveis .

No próprio acto de escrever, o poema aparece ao poeta como outro (de outrem), e como tal lido pelo seu autor enquanto texto exterior a um sujeito poético ele mesmo descentrado.
O sujeito dramático (poético) aparece pois ao mesmo tempo como seu próprio interlocutor de uma infinidade de destinatários num diálogo permanente e múltiplo.

Cada movimento por ele proposto surge sempre associado a um determinado heterónimo ou conjunto de heterónimos.Por exemplo, o paulismo inscreve-se numa das vertentes da poesia ortónima, o interseccionismo se distribui por Pessoa " ele mesmo" e por Álvaro de Campos; já o neopaganismo inspira a poesia de Alberto Caiero e de Ricardo Reis, enquanto o sensaccionismo parece ramificar-se com nuances pelos vários heterónimos.
O poeta ortónimo situa-se ao mesmo nível que os restantes poetas - ele é afinal um heterónimo a que o autor emprestou a sua identidade privada. Como alíás, diz Jorge de Sena, que numa carta a Fernando Pessoa, escreve: "E Você, quando escreveu em seu próprio nome, não foi menos heterónimo do que qualquer um deles".

A problematização da personalidade é implicada como pano de fundo da invenção de "personalidades fictícias", ou seja: a dramatização do sujeito. Este tema prolifera não só nas notas de auto-interpretação, mas também na poesia dos vários heterónimos.

Em Campos:
Não tenho personalidade alguma
e em Fernando Pessoa (ortónimo):
Não pertencer nem a mim!

Este pôr em questão, pela poesia de cada heterónimo, da subjectividade do poeta enquanto tal ,revela à evidência que se trata não de uma simples crise de personalidade psicológica, mas do sujeito poético em sim mesmo considerado, na sua pluralidade.
A estrutura dialógica da heteronímia é um processo de construção criadora que não sendo fechado sobre si , é aberto e infinito, numa multiplicação de personalidade.

"Que cada um de nós multiplique a sua personalidade por todas as outras personalidades"

A heteronímia exige acima de tudo uma apreensão desta intertextualidade, numa visão global em que as metalinguagens críticas participam no conjunto integrado da sua obra.

Fonte: http://www.ufp.pt/ - Universidade Fernando Pessoa - Portugal