Fernando Pessoa - O Poeta Português

por José de Almada Negreiros Não tenho uma carta de Fernando Pessoa. A nossa convivência de vinte cinco anos foi exclusivamente feita pela Arte. E faz-me crer que Fernando Pessoa não manteve, fora da sua família, intimidade de outra espécie com ninguém. Ou de Arte ou nenhuma.

Na dedicatória da "Cena do Ódio" escrevi: "A Álvaro de Campos com a dedicação intensa de todos os meus avatares". Por seu lado, na mesma época (1915) Fernando Pessoa dedicava-me "A passagem das horas" com estas palavras: "Almada Negreiros, você não imagina como eu lhe agradeço o facto de você existir." Estas dedicatórias são as das nossas próprias obras. Nunca em admirei mais a alguém, e nunca ninguém soube ser tão francamente generoso para comigo!

Ao entregar-lhe um exemplar do nº 1 dos meus cadernos SW, escrevi esta linha: "A Fernando Pessoa, ao melhor companheiro literário que um autor possa alguma vez encontrar".

Fiz a citação destas dedicatórias para que melhor se veja como apenas a Arte é o bastante para fornecer a amizade.

Quero lembrar-me nas nossas conversas de alguma coisa que melhor sirva de seu retrato para hoje, e recordo estas palavras de Fernando Pessoa:

"Você não me verá nunca escrever sobre quem quer que seja senão literariamente acerca do literato. O espírito crítico afasta-se da convivência com os que conhecemos mais perto e chegamos a estimar. É indispensável que alguém fique de fora para julgar. Ficar fora do que se sabe que fica lá dentro é ser crítico. À parte isto, há outros sobre os quais nunca escreverei: aqueles que têm voz própria. Acho que juntar mais uma opinião à de um autor que já a tem, não é fazer crítica, é querer ser crítico. São bem raros aqueles que puseram o dedo em si próprios, e a crítica não pode ir mais longe do que isto.

Mas quanto um poeta nasce nos seus próprios versos, devemos querê-lo através de tudo; e o crítico, sem deixar de o ser, cede espaço ao arauto. Porque a idade perigosa dos poetas é a dos versos. Quantos poetas morreram nos seus próprios versos! Quantos versos ficaram sem o seu poeta."

Não conheci exemplo igual ao de Fernando Pessoa: o do homem substituído pelo poeta!
Esta sobreposição do poeta ao homem, outro que não Fernando Pessoa poderia tê-la feito mal. Mas ele tinha posto efectivamente toda a sua vida na Poesia; ele é exactamente o poeta dos seus versos.

A esta cedência do homem ao poeta, chamem-lhe renúncia, convento, morfina, clausura, segredo de resistir, chame-lhe o que quiser, mas Fernando Pessoa fê-lo bem, com inteireza, com altura e com as suas próprias posses.

E até que um dia de 1935 o poeta foi pessoalmente enterrar o corpo que o acompanhou toda a vida. Ficou só o poeta, aceso em olhos perenes de Portugal, do Mundo e do Futuro. Ficou só o poeta, o único poeta que não viu as suas próprias aventuras naturais de homem.

(...)
É nestas circunstâncias que reconheço em Fernando Pessoa o melhor exemplo do português de hoje, e o menos passageiro. Um exemplo de português no mundo e no futuro, aqui no Portugal de hoje. Foram também assim desta maneira todos os melhores exemplos na História Portuguesa e nas outras.

Mas se por ventura Portugal é uma terra de Poetas, oficialmente não o é: O heroísmo da independência espiritual do homem, só um poeta o saberá ver noutro poeta. Mais ninguém! Os portugueses parece estarem ainda no momento de não suporem a independência senão quanto à sua nacionalidade, isto é, ainda não supõem a independência da nossa nacionalidade.

Em todo o caso eu, que sou pelo menos tão português como qualquer outro, tenho a honra de publicar que não fomos nunca nós, os seus companheiros, que, em nenhuma circunstância da vida, lhe negámos o seus primeiro lugar!

Os mortos têm uma paz que chega a ser a inveja dos vivos. Dessa paz ergue-se o silêncio que fala a quem o escute. Aos que me possam crer aqui lhes juro ter ouvido o silêncio dizer: "A grande diferença entre Arte e Política é a de que a Arte não tem ódios."

E não haja confusões, senhores! Fernando Pessoa foi exclusivamente poeta: o poeta português Fernando Pessoa.

(In "Diário de Lisboa", 6 de Dezembro de 1935)

Retirado de FERNANDO PESSOA - O Rosto e as Máscaras, David Mourão-Ferreira