Unidade ou Diversidade

"Um dos pontos de reflexão das considerações de Fernando Pessoa é a solidão a que qualquer ser humano está votado(…) perdido diante da infinidade cósmica, divorciado dos outros por se ter adiantado demais aos companheiros de viagem e afastado de si próprio por não encontrar a unidade que nem os deuses têm."

"Deus não tem unidade,
Como a terei eu?"
(Ined. 68)

O problema da unidade em Pessoa tem vindo a ser alvo dos mais complexos estudos.
Jacinto Prado Coelho: "unidade na multiplicidade pelo simples facto de os heterónimos trazerem cada um uma resposta à inquietação crucial do poeta"

O problema da unidade pode ser colocado do ponto de vista de identidade divergente.

Mário Sacramento pronuncia-se desta forma "se por unidade não nos resignamos a confundir a identidade resultante da permanência pura e simples de certas características de índole, concepção e estilo, isto é, se por unidade implicarmos uma acepção dialéctica de pensamento que se opõe para se ultrapassar teremos de a negar à obra de Fernando Pessoa na medida até em que conviermos que os problemas criados pelos heterónimos coexistem na sua obra ortónima (..) os heterónimos serviram assim de referência a Pessoa como pontos de referência às suas tão-só mais ousadas dicotomias intímas."

Numa carta a Cortes-Rodrigues, Pessoa escreve: "Tudo fragmentos, fragmentos, fragmentos..." Embora esta passagem denuncie uma crise psíquica consigo próprio, no entanto, a sua gradualmente adquirida auto disciplina tem conseguido unificar dentro de si "aqueles elementos divergentes que eram susceptíveis de harmonização".

Parece bastante a Pessoa (ele o diz) o ter posto em Caeiro, Reis, Campos "um profundo conceito de vida", diverso em todos os três, mas em todos gravemente atento à importância misteriosa do existir.

Chama também "insincera" à literatura que não contenha " uma fundamental ideia metafísica " pela qual transmita uma noção da gravidade e do mistério da vida.

Na obra "A Metáfora em Fernando Pessoa "Maria da Glória Padrão tenta auscultar as múltiplas trajectórias de absurdização que o poeta imprime às suas próprias condições de vida.

O método bachelardiano de exegese do imaginário fica ao serviço de uma perspectiva diferente: a do existencialismo.

Através do método bachelardiano, o que a autora vai buscar à obra de Pessoa é sobretudo uma tipologia de concepções (parciais ) do mundo, ou da vida, que o poeta sucessiva ou alternativamente esboça para as reduzir ao absurdo.

Mário Sacramento, no ensaio que lhe consagrou, também se empenhou no mesmo objectivo. Mas com uma diferença: Maria da Glória Padrão baseia o seu trabalho num levantamento de imagens a partir dfo texto, e não num levantamento de tópicos doutrinários, como Sacramento.

Glória Padrão identifica estas trajectórias de absurdização como matéria de obra poética, ao passo que Sacramento as encara como testemunho da não- genialidade de Pessoa.
Para Glória Padrão, aquilo que caracteriza a mundividência de Pessoa é afinal uma extrema radicalização daquele sentimento de desamparo perante a vivência do infinito a que Pascal deu a expressão típica e que constitui uma das fontes históricas do existencialismo.

Pascal revelou a consciência de um ser humano perdido na infinidade dos espaços que a mecânica clássica acabava de descobrir na sua época.

Na perspectiva pascaliana, o sentir-se perdido no infinito espacial assinala outro infinito que é humano: o infinito da consciência: a infinidade do tempo e a infinidade dos graus psíquicos da consciência-inconsciência.

O que Pessoa faz como pessoa literária, na abulia que é comum a todos os contrastes heteronímicos é tentar transcender, exprimir através duma vontade real essa abulia.
Pessoa, paralelamente a Pascal, restabelece a dialéctica pensante, imaginante, metaforizante e quanto possível vivente da sua obra no contexto do seu e do nosso mundo.
Como homem e como poeta, Pessoa tenta desvendar essa metáfora do projecto social,numa tentativa constante de humanizar , humanizando-nos.

A metáfora deixou de ter uma finalidade puramente retórica para desempenhar um função duplamente objectiva e subjectiva.

"A metáfora é ela mesma designação metafórica pela multiplicidade ilimitada das suas causas, dos seus efeitos e das suas funções."

Através das suas constantes figurações concretas do abstracto, Glória Padrão tenta captar a consciência do homem que ditou a estrutura da obra.

Depois de distinguidas e recolhidas as metáforas, tenta uma classificação e uma organização de imagens, seguindo um caminho de inclusão dos grupos imagéticos em dois dos quatro elementos clássicos - ar e água -, com o apoio da psicanálise e em processos de classificação temática procura estabelecer a sintaxe das imagens que o poeta é.

Conclui, tendo como ponto de partida o texto, que a obra explica o homem "o mesmo homem que inscreveu ,segundo uma verdade ontológica, as suas realidades na matéria da língua".

As realidades de Pessoa que mais depressa se percepcionam são o sentido de morte em plano horizontal, o que o faz um grande solitário à beira da vida que é forçoso viver e que o conduz à sensação do " escorrer "dos dias e do tempo desligado.

A consciência do tempo leva-o ao tédio e arrasta-o à resultante da incompatibilidade entre a existência e a razão - assim acaba no absurdo.

Liberta-se da realidade próxima objectiva e lança-se nos sonhos sem limite - encontra uma paz feita de irreal , mas nem por isso menos concreta.

Para a expressão destas realidades, há uma organização de imagens à volta de uma que é mais forte e as domina , a "image nourriciére" de que fala Bachelard.

O poeta deixa uma família de imagens coordenar-se e hierarquizar-se pela eleição da mais forte que vai ser o testemunho do seu pré-consciente.

O espaço integrará extensões indefinidas de imensidade e espaços circunscritos a pequenas dimensões, e todas serão a acusação duma forma de solidão perante a imensidade dos mundos ou da vida quotidiana; em torno do elemento água organizar-se-ão as imagens contraditórias de águas correntes e de águas paradas , de mar calmo e de mar agitado, símbolos de um tipo de destino; som, cor, luz, noite, céu azul, traduções de sensações desmesuradas "subtis e evanescentes", têm como imagem centralizadora o ar, símbolo duma plenitude sonhada.

O tempo será o denominador comum dos quatro poetas, todos eles empenhados num sistema aparentemente diferente de procura,mas todos a acabar na inutilidade duma pesquisa que leva ao absurdo.

É a consciência que cria os absurdos, é a inteligência que cria os paradoxos - o encontro duma verdade com a respectiva contradição lógica ou outra verdade.

Do estudo realizado, sempre e só fundamentado no texto, Glória Padrão chega à conclusão de Jacinto Prado Coelho: Fernando Pessoa não é uma divisão em personalidades diferentes; na sua diversidade formal, há uma unidade de problemas.
"Se Caeiro, Reis e Campos, são eles próprios imagens ditadas pelo mesmo anseio profundo, de conhecer a verdade, a consciência que elegeu essas formas de procura é única, é a mesma que elegeu as suas imagens, presentes sempre com a mesma significação original e última em cada um dos quatro nomes principais com que Pessoa assina os seus versos"

Fonte: http://www.ufp.pt/ - Universidade Fernando Pessoa - Portugalfff