Diagnóstico não poupa Pessoa: paranóico

in O Estado de São Paulo, 29.05.199

Ninguém imaginava que as mesmas cartas, poemas e prosa que tornaram Fernando Pessoa o maior poeta português depois de Camões pegariam o poeta pelo pé. Fisgado por dois médicos octogenários e conceituados, colocado no divã de paciente, analisado com frieza, o poeta que melhor escreveu o que vai dentro das nossas cabeças recebeu o diagnóstico: era um esquizofrênico paranóico.

Esse é o tema do livro O Caso Clínico de Fernando Pessoa, publicado pela editora portuguesa Referendo, pós-faciado por Duarte Santos, catedrático em Medicina da Universidade de Coimbra. O livro veio para a Bienal para ser publicado no Brasil pela Universitária. Diante dos leitores chocados, os autores Mário Saraiva e Luís Duarte Santos respondem que, aos médicos, nenhuma doença surpreende, mesmo que o implicado seja Pessoa. "É preciso coragem para enfrentar os mitos", dizem.

Mas os médicos discordam entre si: para Duarte Santos, Pessoa era pananóico, para Saraiva, um esquizofrênico típico. Saraiva não perdoa: esquisitímico, com distimia cíclica, sofrendo de alucinações que envolvem o esoterismo e mania de missão, cheio de fobias e megalomanias. Para ele, Pessoa foi fruto de vivências mentais perturbadas que produziram "estâncias medíocres de vulgaridade" com alguns momentos de lucidez que o médico alivia, por exemplo, em Mensagem, escrita há 65 anos.

"Ao ouvir o som das trovoadas, Pessoa escondia-se debaixo das mesas do Café Martinho da Arcada", justifica Saraiva. É verdade que Pessoa decidia no mapa astral se ía ou não ao encontro de pessoas - em 1934, Cecília Meireles esperou em vão pelo poeta na Brazileira do Chiado que justificou a ausência num bilhete: de acordo com o horóscopo os dois não se deveriam encontrar. Ninguém iria tão longe quanto Saraiva: "Tinha impulsos repentinos e estranhos, ziguezagueando feito bêbado pelas ruas, ou fingindo que procurava coisas no chão só para desafiar o ridículo diante da mãe e ninguém deve esquecer que ele próprio requereu internamento num manicômio - se não era doente mental, o que era?"

Os mesmo versos que deram glória à lingua portuguesa são usados contra o poeta. Para Saraiva "Quebro a alma em pedaços/ E em diversas pessoas" revela dissociação psíquica e esquizofrenia mista - hebefrênica, paranóica, catatônica. Isso explica os heterônimos e a forma de se apresentar aos amigos: "Hoje não fui eu quem vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos."
As palavras estressou, desasseio, acordo e redurmo, deslembro refletem o pensamento desordenado dos esquizofrênicos - o que coloca não só Pessoa, mas até Guimarães Rosa em perigo.

"Às vezes sou o Deus que trago em mim
E então eu sou o Deus e o crente e a prece"

- para os médicos isso é delírio, mania psicopata de filosofia, ocultismo, misticismo.
Saraiva vasculha estranhezas sexuais:

"Vil metafísica do horror da carne...
Pudesse-te eu amar sem que existisses...
Queriam-me casado, fútil, cotidiano e tributável?;
A única profissão feminina que não estraga a mulher é a de prostituta.
A mulher que ganha a vida honradamente é uma invertida."

E revela o heterônimo Maria José, que cai como luva ao autor que dizia: "Não sou mulher nem homem", "sou um temperamento feminino", "não ter sido madame de harém! Que pena tenho de mim por não ter acontecido isso."

Ilustrando a personalidade dupla com a quadra que correu mundo "O poeta é um fingidor. Finge tão completamente/ Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente", Saraiva tasca o diagnóstico: simulação de normalidade. Cito o próprio colega de Pessoa em Durban, Clifford Geerdts, que dizia: "Nossas carteiras eram pegadas, ele era um rapazinho de cabeça grande, inteligência brilhante, mas um pouco doido." Em Portugal, antes dos dois médicos, Vitorino Nemésio qualificava Pessoa de "louco cordo". Gênio ou louco? Saraiva não duvida: "Tinha noção da fragmentação da sua personalidade e entrava em depressão." Para um médico que leva as coisas ao pé da letra, Pessoa - cada vez mais publicado na Europa e nos Estados Unidos, tema do Magazine Littéraire e utilizado até por Umberto Eco no anagrama Soapes em Pêndulo de Foucault - é um prato cheio.

Segue um exemplo do que Pessoa escrevia nas cartas e na prosa: "O meu caso é de natureza psíquica... Sou um histeroneurastênico com predominância do elemento na emoção e do elemento neurastênico na inteligência e na vontade... Partiu-se a corda do automóvel velho que trago na cabeça e o meu juízo, que já não existia, fez tr-r-r-r... Tenciono ir para uma casa de saúde ver se encontro ali tratamento que me permita resisitir à onda negra que me está caindo sobre o espírito... A minha alma partiu-se como um vaso vazio... Sou um espelhamento de cacos. Quantos sou eu? Sabes quem sou? Eu não sei. Medo de amor. Tenho sonhado mais do que Napoleão fez."