Orpheu (1915/1916 -1º, 2º, 3º números)

"O Orpheu é a soma e a síntese de todos os movimentos literários modernos. Entenda-se que parte do simbolismo, do decadentismo, do paulismo, simultaneismo, futurismo, cubismo, expressionismo, sensacionismo, interseccionismo e outros ismos" (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação).

Orpheu representa um desafio à sociedade culta portuguesa e o desejo de elevar Portugal à dimensão do moderno, à dimensão da Europa.No Orpheu está patente o fantasma da infância. A infância é anterior à divisão, à fractura da consciência, à descoberta do abismo. O mito da infância não parece inovador no meio do conjunto de agressões sofridas por quem lêr a revista.Mas é no entanto, a grande ponte para a mito-critíca do poeta, é um daqueles elementos em que sempre se pára e se reflecte, para detectar o que essa intersecção, quase que incontrolada, traz consigo. A infância, fantasma recorrente, põe o problema da desadequação do autor à vida e à realidade de si mesmo, que nunca lhe agradou. Traduz em última análise, o apelo do mundo original da mãe, do estado anterior à queda do nascimento. O fim último do Orpheu, que ele pretendia atingir era a fusão de toda a poesia lírica, épica e dramática, em algo de superior que as transcendia. A sua iniciação era a palavra - o seu verdadeiro e único mistério; é o esoterismo no projecto de Orpheu. A desarticulação da metrificação tradicional, o verso livre, a estrofe igualmente livre, que a par de formas tão clássicas como o soneto, os homens do Orpheu utilizaram, já tinham sido introduzidas por Junqueiro, Pascoaes e Nobre. No entanto, o emprego do contraste do requinte da forma e um prosaismo de estilo, identificam uma crise de que o Orpheu é representante. Os homens do Orpheu, trouxeram ao primeiro plano da vivência poética uma nova concepção da personalidade - subjacente à mentalidade do grupo de Orpheu, está a derrocada de todos os valores anunciados por Nietzsche. No plano sociológico à projecção cósmica do espírito poético no Universo, efectuada por Teixeira de Pascoaes, emerge antítese: a busca de uma "estruturação transcendental", de percurso até ao infinito pelo jogo das personalidades até ao mais fundo da própria consciência. Em todos os seus escritos (políticos, comerciais) usou uma ironia transcendente, que é uma das constantes da poesia portuguesa e que define sui generis o grupo Orpheu, porque ela exprime a mutabilidade, diversidade e imprevisibilidade da vida.Com Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e Almada Negreiros tornou-se um símbolo "único e diverso, nacional e universal, actual e eterno - e um exemplo de coragem moral e de indefectível liberdade de espírito"

Há apenas duas coisas interessantes em Portugal
a paisagem e o Orpheu.
(Álvaro de Campos)

Fernando Pessoa, ao mesmo tempo que se vai distanciando da geração da Renascença Portuguesa, vai-se aproximando de outra geração, que ficará conhecida como a Geração do Orpheu. Reune-se, com frequência, em cafés da baixa lisboeta, com Mário de Sá-Carneiro e Santa-Rita Pintor, que trazem presentes as novas tendências estéticas europeias, nomeadamente, francesas, com Amadeo de Sousa Cardoso, Almada Negreiros e Raúl Leal. Deste grupo, a que se acrescentam Luis de Montalvor, Armando Cortês Rodrigues, bem como António Ferro, irá surgir o projecto de uma revista destinada a congregar as diversas tendências estéticas destes artistas e a intervir na vida intelectual e literária portuguesa, projecto que se concretiza na revista Orpheu, financiada pelo pai de Mário de Sá-Carneiro. No primeiro número desta revista (Abril de 1915) colaboram Luís de Montalvor, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Alfredo Pedro Guisado, Almada negreiros, Cortês Rodrigues, Álvaro de Campos e José Pacheco, o responsável pela direcção gráfica. No final da introdução a esta primeira edição, assinada pelo seu director Luis de Montalvor, o grupo manifesta o propósito de ir ao encontro de alguns desejos de bom gosto e refinados propósitos em arte que isoladamente vivem por aí, convictos de que a revista, pelo seu carácter inovador, revela um sinal de vida no ambiente literário português e o desejo, por parte do público leitor de selecção, de mostras de contentamento e de adesão para com este projecto literário. Se da parte dos leitores de selecção, esta primeira edição encontrou mostras de carinho e de contentamento, no público em geral causou grande escândalo e polémica. A revista abalou decididamente o ambiente literário português pela ousadia e vanguardismo dos textos que nela se reuiram. Foi, sem dúvida, um sinal de vida que rompeu com as tradições literárias e significou o advento do modernismo no nosso país. O próprio Pessoa, em carta a Armando Côrtes-Real, revela o sucesso da revista e o escândalo que esta provocou, nomeadamente pelo poema 16 de Mário de Sá-Carneiro e a Ode Triunfal de Álvaro de Campos.

Do segundo número da revista (Junho de 1915), dirigido por Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro, constam textos de Angelo de Lima, Mário de Sá-Carneiro, Eduardo Guimaraens, Raul Leal, Violante de Cysneiros, Luis de Montalvor, Fernando Pessoa e Álvaro de Campos. Esta edição conta ainda com a colaboração de Santa-Rita Pintor. O terceiro número da revista não passou, por falta de financiamento, da fase das provas de página. Para este número estavam previstos textos de Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Albino Menezes, Augusto Ferreira Gomes, Almada Negreiros, Thomaz de Almeida, de C.Pacheco e de Castello Moraes. Para além da falta de dinheiro para a continuidade do projecto, o grupo do Orpheu em breve se vê desagregado, para o contribuiu a morte de Mário de Sá-Carneiro, em 1916, de Santa-Rita Pintor e de Amadeo de Sousa Cardoso, em 1918, a ida de Côrtes-Rodrigues para os Açores, de onde era natural, e o afastamento de António Ferro para outros campos como o jornalismo e a política. Depois do Orpheu, Almada Negreiros, em 1917, dirige a revista O Portugal Futurista, que se assemelha em muitos aspectos à revista do grupo. Tratou-se, contudo, de um projecto que não passou do primeiro número. Alguns anos depois, em 1922, José Pacheco tenta reconstruir o grupo Orpheu com o lançamento da Contemporânea, revista que conhece uma série de edições, nas quais Fernando Pessoa colabora com vários textos. Não passou contudo de uma tentativa, já que lhe faltava, desde logo, o arrojo e o talento de grande parte dos nomes da Geração do Orpheu.

Fonte: http://www.ufp.pt/ - Universidade Fernando Pessoa - Portugal