Pessoa por Pessoa

 

"Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento, Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho
e vendo as minhas idéias,
Ou olhando para as minhas idéias
e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como
quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predileta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural —
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar, E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado."

(Alberto Caeiro - trecho do primeiro poema do Guardador de Rebanhos)

 

Fernando António Nogueira Pessoa, Nasceu em Lisboa, freguesia dos Mártires, no prédio n. 4 do Largo de S. Carlos (hoje no Directório), em 13 de junho de 1888.

Filiação: Filho de Joaquim de Seabra Pessoa e de D. Maria Madalena Pinheiro Nogueira. Neto paternal do General Joaquim António de Araujo Pessoa, combatente das campanhas liberais , e de D. Dionísia Seabra ;neto materno do Conselheiro Luís António Nogueira, jurisconsulto, e que foi director-geral do Ministério do Reino e de D. Madalena Xavier Pinheiro. Ascendência geral - misto de fidalgos e de judeus.

Profissão: A designação mais própria será 'tradutor', a mais exata a de 'correspondente estrangeiro em casas comerciais'. O ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação.

Educação: Em virtude de, falecido seu pai em 1893, sua mãe ter casado, em 1895, em segundas núpcias, com o Comandante João Miguel Rosa, Cônsul de Portugal em Durban, Natal, foi ali educado. Ganhou o Prémio Rainha Vitória de estilo inglês, na Universidade do Cabo da Boa Esperança em 1903, no exame de admissão, aos 15 anos.

Ideologia Política: Considera que o sistema monárquico seria o mais próprio para uma nação orgânicamente imperial como é Portugal. Considera, ao mesmo tempo, a Monarquia completamente inviável em Portugal. Por isso, a haver plebiscito entre regimes votaria, embora com pena, pela República. Conservador do estilo inglês, isto é, liberal dentro do conservantismo, e absolutamente anti-reacionário.

Posição Religiosa: Cristão gnóstico, e portanto inteiramente oposto a todas as Igrejas organizadas, e sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas relações com a Tradição Secreta de Israel ( a Santa Kabbalah ) e com a essência oculta da Maçonaria.

 

Posição Patriótica: Partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda inflitração católica-romana, criando-se, se possível for, um sebastianismo novo, que a substitua espiritualmente, se é que no catolicismo português houve alguma vez espiritualidade. Nacionalista que se guia por este lema:

"Tudo pela Humanidade;
nada contra a Nação".

Posição Social: Anticomunista e anti-socialista. O mais deduz-se do que vai dito acima.

Resumo destas últimas considerações: Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários, e combater, sempre e em toda a parte, os seus três assassinos : a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.



Lisboa, 30 de Março, de 1935