Pessoa foi fascinado pelo ocultismo

Sábado, 28 de novembro de 1998 - Jornal de Brasil, Idéias

Goethe, como Fernando Pessoa, foi devoto cultor das ciências mágicas; iniciado numa loja maçônica desde os anos juvenis, pertenceu sucessivamente a várias sociedades secretas de fundamentos ocultistas; conheceu Cagliostro em Estrasburgo; a astrologia e a alquimia por ele cultivadas eram no fim das contas a antecâmara das suas curiosidades científicas. "Não procures, nem creias: tudo é oculto", disse Fernando Pessoa, para ser depois contraditado por Alberto Caeiro que afirmou: "O único sentido oculto das coisas / é elas não terem sentido oculto nenhum." Sua mediunidade o levou às práticas ocultistas, à defesa da Rosa-Cruz e da maçonaria, à astrologia, à numerologia. Um intelectualista do tipo que ele era fez entrar na construção mental o que podia caber: o inteligível e o ininteligível, o racional e o irracional, o visível e o invisível, o claro e o misterioso, constituindo um sistema mágico nas suas conclusões embora desprovido de comprovação objetiva. Tudo se passou como se a subliteratura mística de onde extraía alento, ao atravessar seu cérebro privilegiado, saísse do outro lado filtrada e rarefeita do ponto de vista estético.

Fez centenas de horóscopos, talvez milhares, de parentes, de amigos, dos heterônimos, de personalidades históricas (Napoleão, Vítor Hugo, Shakespeare, D. Sebastião, Chopin), por vezes até de entidades como "Portugal" ou a "República". Aliás, todo o grupo modernista português era dado ao sebastianismo delirante, ao gosto pelas ciências ocultas, à metapsíquica, à astrologia e à religiosidade heterodoxa e esotérica. Depois que Sá-Carneiro penou em Paris a crise mental que o levou ao suicídio, Fernando Pessoa escreveu de Lisboa à tia Anica, ela própria mediúnica: "Eu senti a crise aqui, caiu sobre mim uma súbita depressão vinda do exterior." Após o "insulto apoplético" sofrido pela mãe e o suicídio de Sá-Carneiro, amigo a quem era mais ligado, aprofundou a iniciação. Ser médium, para ele, era praticar a "escrita automática", não como os surrealistas, mas à maneira de Vítor Hugo, que escrevia sob ditame do espírito de um morto mais ou menos identificado. João Gaspar Simões não acreditava que o ocultismo de Fernando Pessoa fosse inteiramente sincero. Mas havia alguma coisa inteiramente sincera naquele simulador nato?

Fernando Pessoa nunca procurou lutar contra a incompreensão. Pelo contrário, cultivou-a afanosamente, pois mistificar era um jogo em que com honestidade empenhou tudo. Profissão: correspondente comercial de línguas estrangeiras, até o fim. Não se conhece vida de escritor que tenha sido tão falhada, e também nenhuma tão transfigurada pela arte ("Não sou nada. / (...) / Aparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo"). Em outro momento, exclamou: "Quando quis tirar a máscara, / Estava pegada à cara." Por intermédio de Álvaro de Campos disse que "temos todos duas vidas: a verdadeira, que é a que sonhamos na infância; e a falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros". Perdida a bitola da educação inglesa, adquirida em Durban, África do Sul, onde o padrasto era cônsul, soçobrou na indisciplina lusitana: fado, álcool, tristeza sem causa, apatia, saudosismo, um rumo incerto, obsessão de uma "vertigem moral". No Livro do desassossego, Bernardo Soares se definiu por ele, a propósito de Shakespeare: "Sou um temperamento feminino com uma inteligência masculina", "(...) Sempre gostei de ser amado, e nunca de amar" (...) "Agradava-se a passividade". Octavio Paz (El desconocido de sí mismo, em Cuadrivio) constatou que na obra poética de Fernando Pessoa a ausência da mulher é constante: "Faltam nele os prazeres tremendos. Falta a paixão, aquele amor que é o desejo de um ser único." Tanto Alberto Caeiro como Ricardo Reis falam como eunucos, como se estivessem encobrindo, na maior parte da obra, a "sexualidade branca" de Fernando Pessoa, que, segundo consenso geral, morreu virgem. As cenas eróticas do Fausto contêm as confissões mais ardentes que Fernando Pessoa jamais fez sobre sua impotência. A incapacidade de praticar o "contato carnal das almas" impedia-o de realizar seu sonho de amor ("Seria doce amar, cingir a mim, / Um corpo de mulher, mas fixo e grave / E feito em tudo transcendentalmente, / O pensamento impede-me...").

O caso com Ofélia Queirós ilustra esta incapacidade. Foram noivos durante dois períodos, inconclusivos. O par Fernando-Ofélia era na verdade uma relação a três, que incluía o heterônimo Álvaro de Campos, durante a qual Ofélia recebeu uma carta assinada por Álvaro de Campos, contrário ao namoro, dizendo que gostaria de "deitar a fisionomia abjeta desse Fernando Pessoa de cabeça para baixo num balde cheio de água". O trágico para Ofélia - que só se casou depois da morte de Fernando Pessoa (segundo Ángel Crespo) ou nunca se casou (segundo Robert Bréchon) e que morreu em novembro de 1991 cercada pela família (de acordo com o necrológio feito por Antonio Tabucchi no Corriere della Sera, cortando assim o nó da questão) - foi ter tido de lidar com personalidade dupla. Numa das cartas a Ofélia, redigida com sensibilidade heteronímica, escreveu: "Eu gostava que a Bébé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a." Em outra, sonha com dar-lhe açoites, e que ela lhe batia também.

O álcool veio a ser o elixir mágico a que recorreu até os últimos dias para se libertar de tudo aquilo que no fundo da sua personalidade apodrecia. Álvaro de Campos não queria saber da qualidade do que bebia; falou de "um vinho de bêbedo quando nem a náusea obsta".

Restou-lhe o homossexualismo subentendido, característico do grupo modernista português (Sá-Carneiro, Santa Rita Pintor, Almada Negreiros e os outros). A guerra de 1914 se manifestou neles como a crise que engolfou a Europa e o mundo. Não é apenas no campo de batalha que se travam as guerras, sobretudo as guerras modernas, mas em toda a parte: consciências, estrutura social, conceitos de vida, condições econômicas. Nas personalidades daquele grupo a opinião pública via claros sinais de degenerescência, mas hoje é fácil constatar que as suas atitudes correspondiam ao sentimento geral e então latente de crise. Fernando Pessoa representava o lado consciente do modernismo; Sá-Carneiro, o inconsciente. No Orpheu, Pessoa e Sá-Carneiro, como logo em seguida Pessoa sozinho, ficaram isolados mesmo daqueles poucos que o reconheciam como grande escritor. Mas um grande escritor contra a literatura não é apenas o "grande escritor": é aquele que põe em questão os fundamentos da literatura, infinitamente só no silêncio da sua diferença (Alberto Caeiro: "Ser poeta não é uma ambição minha. / É a minha maneira de estar sozinho").

Adolfo Casais Monteiro disse que a obra de Fernando Pessoa testemunha uma intemporalidade quase absoluta, não havendo nela nem passado nem futuro, mas apenas um eterno-atual que é o verdadeiro tempo em que devem de fato viver os grandes imaginativos, rêveurs éveillés. A qualquer momento de sua poesia é impossível situá-lo como um antes ou um depois em relação a qualquer das partes. A vida de Pessoa é na verdade a vida ideal do poeta. Ele era, como homem, a imagem da imobilidade. Ninguém quis ser menos aparente ("Fui como ervas, e não me arrancaram"). A Fotobiografia mostra-o, ao contrário de Almada Negreiros (em roupa de aviador) ou Santa Rita Pintor (disfarçado de Arlequim), com aspecto sempre banal, anônimo, modesto. O modernismo português não teve nele a imagem-símbolo que marca identidade grupal: o bigode e o chapéu-coco de Marinetti (futurismo italiano), a cabeça raspada de Maiacovski (futurismo russo), o monóculo de Tristan Tzara (dadaísmo), a cabeça enfaixada de Apollinaire (avant-garde francesa) ou o perfil aristocrático, altaneiro, de André Breton (surrealismo). O chapéu, a gabardine, a gravata-borboleta, os óculos de Fernando Pessoa são atributos da banalidade, de funcionário de escritório.

Como a poesia de Baudelaire, a dele não descreve, não conta, não impõe, não pinta, não tenta convencer. Pensava em inglês, e a isso se deve talvez uma coisa profundamente característica: a economia extraordinária da palavra e o uso marcadamente racional dela. Jorge de Sena crê que por toda a vida ele pensou em inglês o que escreveu em português. A descoberta da hierática, majestosa e metafórica palavra de Vieira, à maneira das línguas orientais, foi para ele a chave de um dos mistérios que sua personalidade de adolescente guardava intacto: a inadaptação ao presente, a saudade. Assim veio-lhe naturalmente a idéia de aceitar teosofia e gnosticismo, magia e ocultismo como religião messiânica por excelência. É nos períodos de decadência do espírito religioso que a magia arcaica reconquista adeptos e prestígio.

Mas ele mesmo se situou geograficamente em tudo isto: "Minha pátria é a língua portuguesa." E o escritor, comentou Bernardo Soares, em dia de Fernando Pessoa, "é um derrotado que organiza os próprios malogros para deles obter uma espécie de amarga vitória"...

(Léo Schlafman)