Paùlismo, Interseccionismo e Sensacionismo

"Somos portugueses que escrevem para a Europa,
para toda a civilização; nada somos por enquanto,
mas aquilo que agora fizermos será um dia
universalmente conhecido e reconhecido."

(Fernando Pessoa- Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.121)

Ao longo de 1913, Fernando Pessoa percorre novos caminhos literários e estéticos, estando na origem de novas correntes de índole diversa, como por exemplo o paùlismo, o interseccionismo e o sensacionismo, expressões da moderna literatura portuguesa.

Com seu poema Impressões do Crepúsculo, marca o advento da poesia modernista em Portugal. Deste poema deriva a corrente paúlismo, o primeiro ismo criado por Fernando Pessoa, tal foi o entusiasmo com que o seu poema foi recebido junto do grupo de amigos que aí viam uma notória inovação e revolução da poesia portuguesa. O poema Impressões do Crepúsculo, que se inicia pela palavra pauis, situa-se no cruzamento de correntes opostas: o saudosismo, corrente literária inspirada em Teixeira de Pascoaes e que se transporta para os poetas reunidos em torno da revista A Águia e o simbolismo-decadentista, que se afasta da primeira seguindo as novas tendências estéticas europeias.

Do paùlismo derivou ainda outra corrente, o interseccionismo, cuja melhor expressão foi a Chuva Oblíqua, corrente que resulta de uma adaptação do paùlismo a novas estéticas como o futurismo e o cubismo. Com esta corrente o poeta pretende exprimir a complexidade e a intersecção das sensações percepcionadas, aproximando-se, então, do cubismo que exprime a interpenetração e sobreposição dos planos dos objectos.

Mais tarde surgia o sensacionismo, corrente que faz a apologia da sensação como a única realidade da vida corrente que Fernando Pessoa considera cosmopolita e universalista e que corresponde a uma arte sem regras, conforme o texto datado de 1916:

A uma arte assim cosmopolita, assim universal, assim sintética, é evidente que nenhuma disciplina pode ser imposta, que não a de sentir tudo de todas as maneiras, de sintetizar tudo, de se esforçar por de tal modo expressar-se que dentro de uma antologia da arte sensacionista esteja tudo o que de essencial produziram o Egipto, a Grécia, Roma, a Renascença e a nossa época. A arte, em vez de ter regras como as artes do passado, passa a ter só uma regra - ser a síntese de tudo. (Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, p.124)

Numa carta a um editor inglês, Fernando Pessoa define da seguinte forma a atitude central do sensacionismo:

1- A única realidade da vida é a sensaçaõ. A única realidade em arte é a consciência da sensação.

2- Não há filosofia, ética ou estética, mesmo na arte, seja qual for a parcela que delas haja na vida. Na arte existem apenas sensações e a consciência que dela temos.[...]

3- A arte, na sua definição plena, é a expressão harmónica da nossa consciência das sensações, ou seja, as nossas sensações devem ser expressas de tal modo que criem um objecto que seja uma sensação para os outros. [...]

4- Os três princípios da arte são: 1) cada sensação deve ser plenamente expressa [...]; 2) a sensação deve ser expressa de tal modo que tenha a capacidade de evocar - como um halo em torno de uma manifestação central definida - o maior número possível de outras sensações; 3) o todo assim produzido deve ter a maior parecença possível com um ser organizado, por ser essa a condição da vitalidade. Chamo a estes três princípios 1) o da Sensação, 2) o da Sugestão, 3) o da Construção.(Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação, pp.137-138)

Fonte: http://www.ufp.pt/ - Universidade Fernando Pessoa - Portugal