A Panela do Diabo (1989)


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O Best Seller Go
Você Roubou Meu Videocassete Go
Cãibra no Pé Go
Entrevista concedida ao Jô Soares Go















Rock and Roll
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Há muito tempo atrás na velha Bahia
Eu imitava Little Richard e me contorcia
As pessoas se afastavampensando
Que eu estava tendo um ataque de epilepsia

No teatro Vila Velha, velho conceito de moral
Bosta nova pra universitário, gente
Fina, intelectual
Oxalá, oxum dendê oxossi de não
Sei o quê

Oh rock n’roll, yeah, yeha, yeha, that’s rock n’roll

A carruagem foi andando e uma década
Depois
Nêgo dizia que indecência era o mesmo
Feijão com arroz
Eu não podia aparecer na televisão
Pois minha banda era nome de palavrão

Lá dentro do camarim na maior abafamento
A mulherada se chegando, altos pratos
Suculentos
E do meu lado um hippie punk
Me chamando de traidor do movimento

Oh rock n’roll, yeah, yeha, yeha, that’s rock n’roll

Alguns dizem que ele é chato
Outros dizem que é banal
Já o colocam em propaganda
Fundo de comercia;
Mas o bicho ainda entorta minha coluna
Cervical

Já dizia o eclesiastes
Há dois mil anos atrás
Debaixo do sol não há nada de novo
Não seja bobo meu rapaz
Mas nunca vi Beethoven fazer
Aquilo que Chucky Berry faz

Roll over Beethoven, roll over Beethoven
Roll over Beethoven tell Tchaikovsky the news

E pra terminar com esse papo eu só
Queria dizer
Que não importa o sotaque e sim o
Jeito de fazer
Pois há muito percebi que Genival Lacerda
Tem a ver com Elvis e com Jerry Lee

Por aí os sinos dobram, isso não é tão ruim
Pois se são sinos da morte ainda não
Bateram pra mim
E até chegar a minha hora
Eu vou com ele até o fim

Oh rock n’roll, yeah, yeha, yeha, that’s rock n’roll

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Carpinteiro do Universo
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Carpinteiro do universo eu sou
Carpinteiro do universo eu sou

Não sei por que nasci pra querer ajudar
A querer consertar o que não pode ser
Não sei pois nasci para isso e aquilo
E o enguiço de tanto querer

Carpinteiro do universo inteiro eu sou
Carpinteiro do universo inteiro eu sou

Estou sempre pensando em aparar o cabelo de alguém
E sempre tentando mudar a direção do trem
À noite a luz do meu quarto eu não quero apagar
Pra que você não tropece na escada quando chegar

Carpinteiro do universo inteiro eu sou
Carpinteiro do universo inteiro eu sou

O meu egoísmo é tão egoísta
Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar

Carpinteiro do universo inteiro eu sou
Carpinteiro do universo inteiro eu sou
Carpinteiro do universo inteiro eu sou assim
No final carpinteiro de mim

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Quando Eu Morri
(Marcelo Nova)

Quando eu morri em dezembro de 1972
Esperava ressuscitar e juntar os pedaços da
Minha cabeça um tempo depois
Um psiquiatra disse que eu forçasse a barra e
Me esforçasse pra voltar à vida
E eu parei  de tomar ácido lisérgico e fiquei
Quieto, lambendo minha própria ferida

Sem saber se era crime ou castigo e se havia
Outro cordão no meu umbigo pra de novo arrebentar
Pois eu sofri puxado a ferro, arrancado do útero
Materno e apanhei pra poder chorar
Quando eu morri suando frio, vi Jimi Hendrix
Tocando nuvens distorcidas, eu nem consegui falar
E depois por um momento o céu virou
Um fragmento, do inferno em que eu tive de entrar

Eu sentia tanto medo só queria dormir cedo
Pra noite passar depressa, e não poder me agarrar
Noites de garras de aço me cortavam em mil
Pedaços e no outro dia eu tinha de me remendar
E se vida pede a morte talvez seja muita
Sorte eu ainda estar aqui. E a cada beijo
Do desejo eu me entorpeço e me esqueço
De tudo que ainda não aprendi

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Banquete de Lixo
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Às três horas da manhã numa cidade
Tão estranha
Um palhaço teve a manha de um banquete
Apresentar
E era um latão de lixo transbordando
N. York catchup e caviar

Eu dormindo embriagado um par de coxas do
Meu lado e eu sem saber se devia ou não tocar
Se era estrangeira mãe esposa ou outra
Besteira que eu inventei de aprontar

O hoje é apenas um furo no futuro
Por onde o passado começa a jorrar
E aqui isolado onde nada é perdoado
Vi o fim chamando o princípio pra poderem se encontrar

Fui levado na marra pois enfermeiro quando
Agarra é que nem ordem de prisão
A ambulância me esperava e aó o que
Rolava internamento e injeção

E lá em Serra Pelada, ouro no meio do
Nada. Dor de barriga desgraça resolveu
Me atacar
O Show estava começando e eu no escuro
Me apertando e autografando sem parar

O hoje é apenas um furo no futuro
Por onde o passado começa a jorrar
E aqui isolado onde nada é perdoado
Vi o fim chamando o princípio pra poderem se
Encontrar

Muitas mulheres eu amei e com tantas
Me casei
Mas agora é Raul Seixas que Raul vai
Encarar
Nem todo bem que conquistei, nem todo
Mal que eu causei, me dão direito de
Poder lhe ensinar

Meu amigo Marceleza já me disse com
Certeza
Não sou nenhuma ficção
E assim torto e de verdade com
Amor e com maldade, um abraço e
Até uma vez

O hoje é apenas um furo no futuro
Por onde o passado começa a jorrar
E aqui isolado onde nada é perdoado
Vi o fim chamando o princípio pra poderem se
Encontrar

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Pastor João e a Igreja Invisível
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Eu não sei se o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi prá não lhe deixar no horror
Que eu vim pra lhe acalmar

Se o pecado anda sempre ao seu lado
E o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar

Pois eu transformo água em vinho, chão em céu
Pau em pedra, cuspe em mel
Prá mim não existe impossível
Pastor João e a Igreja Invisível

Para os pobres e os desesperados
E todas as almas sem lar
Vendo barato a minha nova água benta
Três prestações qualquer um pode pagar

O sucesso da minha existência
Está ligado ao exercício da fé
Pois se ela remove montanhas
Também traz grana e um monte de mulher

Pois eu transformo água em vinho, chão em céu
Pau em pedra, cuspe em mel
Prá mim não existe impossível
Pastor João e a Igreja Invisível

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Século XXI
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu

Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

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Nuit
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Eu, eu ando de passo leve pra não acordar o dia
Sou da noite a companheira mais fiel qu'ela queria!
Amo a guerra, adoro o fogo
Elemento natural do jogo, senhores:
Jamais me revelarei
Jamais me revelarei!

E quão longa é a noite
A noite eterna do tempo
Se comparado ao curto sonho da vida
Chega enfeitando de azul
A grande amante dos homens
Guardando do sol, seu beijo em comum

Seja bom ou o que não presta
Acendo as luzes para nossa festa, senhores:
Eu sou o mistério do sol!
Eu sou o mistério do sol!

Mas é com o sol que eu divido toda a minha
energia
Eu sou a noite do tempo
Ele é o dia da vida
Ele é a luz que não morre
Quando chego e anoiteço
O sol dos dois horizontes
A mais perfeita harmonia

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O Best Seller
(Raul Seixas e Marcelo Nova )

O Best seller do momento
É um livro agourento
Que ninguém entende mas
Todo mundo quer ler

Ler pra ter cultura e como acabaram
Com a censura
A mídia agora é o nosso Aiatolá

Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa com o mocinho
E o best seller vai pra milésima
Edição

O presidente conversa com Sting
E é você quem não distingue
Quais são os índios que vão tomar
No xingú

Ai meu deus que agonia com toda
Essa pontaria
A pomba escapa e quem se ferra é
O urubu

Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa com o mocinho
E o best seller vai pra milésima
Edição

Se já não existe inteligência então vamos
Bater continência pra esse indício
De resquício militar
E como é tudo a mesma merda, antes que
Cheque a vida eterna
Eu vou pedir asilo ao Paraguai

Ah, mas não se importe não
No final o bandido casa com o mocinho
E o best seller vai pra milésima
Edição

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Você Roubou Meu Videocassete
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Você roubou meu vídeo cassete
Pensando que eu fosse o controle remoto
Pra frente e pra trás só na sua
Cabeça
E antes que eu me esqueça "honey darling"
É melhor desligar

Você não quis sair lá de casa
Tal quadro queria ficar na parede
Xingou reclamou e chamou ambulância
Mas hoje na distância foi você quem
Sumiu

Você é tão possessiva
Guardou minha imagem na sua televisão
Você é tão abusiva
Me prende e não muda pra outra
Estação

Você quebrou a minha guitarra
Pois eu a tocava mais que em você
Queria que ei comesse calado
Mais tá rebocado nem vem que
Não tem

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Cãibra no Pé
(Raul Seixas e Marcelo Nova)

Saiba esperto ou burro, você vai morrer aqui
Isso é um perigo eu sei – mas esse é um
País perigoso –
Se você vacilar neguinho chupa sangue de pescoço
E lá se vão mais dois cc

Essa rampa escorrega but don’t worry baby
Nós estamos aqui
Entre igrejas e cassinos e discursos tão
Cretinos mesmo assim - são todos gente finíssima
Mas com eles ou sem nada esse é o nosso país

Saiba esperto ou burro, você vai morrer aqui
Isso é um perigo eu sei - mas esse é um
País perigoso
Se você vacilar neguinho chupa sangue de pescoço
E lá se vão mais dois cc

Eu queria poder saber o que dizer
Para lhe consolar
Mas meu sapato tá apertado e pisaram no meu calo –
Sai pra lá
Não quero ter treinado como um
Dobbermann desse esquema

Nós gritamos um pouco, quebramos algumas
Vidraças, mas tudo bem...
 

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