Dois (1986)


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Daniel Na Cova Dos Leões (4':00") Go
Quase Sem Querer (4':42") Go
Acrilic On Canvas (4':40") Go
Eduardo E Monica (4':32") Go
Central Do Brasil (1':34") Go
Tempo Perdido (5':00") Go
Metrópole (2':50") Go
Plantas Embaixo Do Aquário (2:55) Go
Música Urbana 2 (2':42") Go
Andrea Doria (4':58") Go
Fábrica (4':56") Go
"Índios" (4':23") Go
Ficha Técnica Go













Daniel Na Cova Dos Leões
(Renato Russo/Renato Rocha)

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo:
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era pouco e muito pouco.
Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão:
Teu corpo é o meu espelho e em ti navego
E sei que a tua correnteza não tem direção.
Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos.
É o mal que a água faz, quando se afoga
E o salva-vidas não está lá porque não vemos.
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Quase Sem Querer
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha)

Tenho andado distraído,
Impaciente e indeciso,
E ainda estou confuso.
Só que agora é diferente:
Estou tão tranqüilo
E tão contente.
Quantas chances disperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar pra todo mundo
Que eu não precisava
Provar nada pra ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Pra você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir pra si mesmo
É sempre a pior mentira.
Mas não sou mais
Tão crianca a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Ás vezes o que eu vejo
quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você.
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Acrilic On Canvas
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)

- É saudade então.
E mais uma vez
De você fiz o desenho mais perfeito que se fez:
Os traços copiei do que não aconteceu.
As cores que escolhi, entre as tintas que inventei,
Misturei com a promessa que nós dois nunca fizemos
De um dia sermos três.
Trabalhei você em luz e sombra.
Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que nunca
Quis deixar você tão triste.
Sempre as mesmas desculpas
E desculpas nem sempre são sinceras -
Quase nunca são.
Preparei a minha tela
Com pedacos de lençóis
Que não chegamos a sujar.
A armação fiz com madeira
Da janela do teu quarto.
Do portão da sua casa
Fiz paleta e cavalete
E com as lágrimas que não brincaram com você
Destilei óleo de linhaça
E da sua cama arranquei pedaços
Que talhei em estiletes
De tamanhos diferentes
E fiz então
Pincéis com seus cabelos. Fiz carvão do batom que roubei de você
E com ele marquei dois pontos de fuga
E rabisquei meu horizonte.
Era sempre:
- Não foi por mal. Eu juro que não foi por mal.
Eu não queria machucar você: prometo que isso nunca vai
Acontecer mais uma vez.
E era sempre, sempre o mesmo novamente -
A mesma traição.
Às vezes é difícil esquecer:
- Sinto muito, ela não mora mais aqui.
Mas então porque eu finjo que acredito no que invento?
Nada disso aconteceu assim - não foi desse jeito.
Ninguém sofreu: é só você que provoca essa saudade vazia
Tentando pintar essas flores com o nome
De "amor-perfeito" e "não-te-esqueças-de-mim".
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Eduardo e Monica
(Renato Russo)

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar:
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Monica tomava um conhaque,
Noutro canto da cidade,
Como eles disseram.
Eduardo e Monica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo p'ra tentar se conhecer.
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
Festa estranha, com gente esquisita:
- Eu não estou legal. Não aguento mais birita.
E a Monica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir p'ra casa:
- É quase duas, eu vou me ferrar.
Eduardo e Monica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Monica queria ver o filme do Godard.
Se encontraram então no parque da cidade
A Monica de moto e o Eduardo de camelo.
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo.
Eduardo e Monica eram nada parecidos -
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinha de inglês.
Ela gostava do Bandeira e do Bauhaus,
De Van Gogh e dos Mutantes,
Do Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô.
Ela falava coisas sobre o Planalto Central,
Também magia e meditação.
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola, cinema, clube, televisão".
E, mesmo com tudo diferente,
Veio mesmo, de repente,
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia,
Como tinha de ser.
Eduardo e Monica fizeram natação, fotografia,
Teatro e artesanato e foram viajar.
A Monica explicava p'ro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar:
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar;
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois.
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
Que nem feijão com arroz.
Contruíram uma casa uns dois anos atrás,
Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram.
Eduardo e Monica voltaram p'ra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão.
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação.
Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?
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Central Do Brasil
(Renato Russo)

Instrumental
DADO VILLA-LOBOS
guitarras
RENATO RUSSO
violao
RENATO ROCHA
contrabaixo eletrico


Tempo Perdido
(Renato Russo)

Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E salvagem.
Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus
olhos castanhos
Então me abraça forte
e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as
luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido,
ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.
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Metrópole
(Renato Russo)

"É sangue mesmo, não é mertiolate".
E todos querem ver
E comentar a novidade.
"É tão emocionante um acidente de verdade".
Estão todos satisfeitos
Com o sucesso do desastre:
Vai passar na televisão.
"Por gentileza, aguarde um momento.
Sem carteirinha, não tem atendimento -
Carteira de trabalho assinada, sim senhor.
Olha o tumulto: façam fila por favor.
Todos com a documentação.
Quem não tem senha não tem lugar marcado.
Eu sinto muito, mas já passa do horário.
Entendo seu problema mas não posso resolver:
É contra o regulamento, está bem aqui, pode ver.
Ordens são ordens.
Em todo caso já temos sua ficha.
Só falta o recibo comprovando residência.
P'ra limpar todo esse sangue, chamei a faxineira -
E agora eu vou indo senão eu perco a novela v E eu não quero ficar na mão."
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Plantas Embaixo do Aquário
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)

Aceite o desafio e provoque o desempate:
Desarme a armadilha e desmonte o disfarce.
Se afaste do abismo -
Faça do bom-senso a nova ordem;
Não deixe a guerra começar.
Pense só um pouco,
Não há nada de novo.
Você vive insatisfeito e não confia em ninguém
E não acredita em nada
E agora é só cansaço e falta de vontade,
Mas, faça do bom-senso a nova ordem:
Não deixe a guerra começar.
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Música Urbana 2
(Renato Russo)

Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
Cantam música urbana,
Motocicletas querendo atenção às três da manhã -
É só música urbana.
Os PMs armados e as tropas de choque vomitam música urbana
E nas escolas as crianças aprendem a repetir a música urbana.
Nos bares os viciados sempre tentam conseguir a música urbana.
O vento forte seco e sujo em cantos de concreto
Parece música urbana
E a matilha de crianças sujas no meio da rua -
Música urbana.
E nos pontos de ônibus estão todos ali: música urbana.
Os uniformes
Os cartazes
Os cinemas
E os lares
Nas favelas
Coberturas
Quase todos os lugares
E mais uma criança nasceu.
Não há mentiras nem verdades aqui
Só há música urbana.
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Andrea Doria
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá)

Às vezes parecia que, de tanto acreditar
Em tudo que achávamos tão certo,
Teríamos o mundo inteiro e até um pouco mais:
Faríamos floresta do deserto
E diamantes de pedaços de vidro.
Mas percebo agora
Que o teu sorriso
Vem diferente,
Quase parecendo te ferir.
Não queria te ver assim -
Quero a tua força como era antes.
O que tens é só teu
E de nada vale fugir
E não sentir mais nada.
Às vezes parecia que era só improvisar
E o mundo então seria um livro aberto,
Até chegar o dia em que tentamos ter demais,
Vendendo fácil o que não tinha preço.
Eu sei - é tudo sem sentido.
Quero ter alguém com quem conversar,
Alguém que depois não use o que eu disse
Contra mim.
Nada mais vai me ferir.
É que já me acostumei
Com a estrada errada que eu segui
E com a minha própria lei.
Tenho o que ficou
E tenho sorte até demais,
Como sei que tens também.
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Fábrica
(Renato Russo)

Nosso dia vai chegar,
Teremos nossa vez.
Não é pedir demais:
Quero justiça,
Quero trabalhar em paz.
Não é muito o que lhe peço -
Eu quero trabalho honesto
Em vez de escravidão.
Deve haver algum lugar
Onde o mais forte
Não consegue escravizar
Quem não tem chance.
De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?
O céu já foi azul, mas agora é cinza
E o que era verde aqui já não existe mais.
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada de tanto brincar
com fogo.
Que venha o fogo então.
Esse ar deixou minha vista cansada,
Nada demais.
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"Índios"
(Renato Russo)

Quem me dera, ao menos uma vez,
Ter de volta todo ouro que entreguei
A quem conseguiu me convencer
Que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha
Quem me dera, ao menos uma vez,
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Explicar o que ninguém consegue entender:
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
E fala demais por não ter nada a dizer.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Que o mais simples fosse visto como o mais importante,
Mas nos deram espelhos
E vimos um mundo doente.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado.
Quem me dera, ao menos uma vez,
Como a mais bela tribo, dos mais belos índios,
Não ser atacado por ser inocente.
Eu quis o perigo e até sangrei sozinho.
Entenda - assim pude trazer você de volta pra mim,
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim
E é só você que tem a cura para o meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.
Nos deram espelhos e vimos um mundo doente -
Tentei chorar e não consegui.
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Ficha Técnica

Produzido por MAYRTON BAHIA
Jan./Março 1986, EMI-Odeon
Direção Artística: JORGE DAVIDSON
direção de Produçã e Produção Executiva: MAYRTON BAHIA
Assistente de Produção: CARLOS SAVALLA
Técnico de Gravação:AMARO MOÇO
Mixagem: AMARO MOÇO, MAYRTON BAHIA + Legião (outline)
Auxiliares de Estúdio: ROB & GERALDO
exceto "Eduardo e Monica" - Téc. de Gravação: Sérgio Bittencourt, prod. por Renato Russo e "Daniel na Cova dos Leões" - Mixado por Renato Russo, introdução: Carlos Savalla, Amaro Modilo e Renato Russo.
Todos os arranjos por Legião Urbana - Arr. e harmonia p/ guitarra: Dado Villa-Lobos em todas as faixas exceto 4, 5, 9, 12; Arr. p/ contrabaixo nas faixas 1, 2, 3, 4, 6, 8, 12: Renato Rocha.
Arranjo de bateria e percursão: Marcelo Bonfá

Todas as letras © 1986 Renato Russo
exceto:"Eduardo e Monica" e "Música Urbana 2" © 1982 e "Daniel na Cova dos Leões" e "Tempo Perdido" © 1985 - Ed. Tapajós
TODOS OS DIREITOS RESERVADOS
P 1986 Emi-Odeon, Brasil
Special thanks to Rafael Azulay, Emil Varga Filho, Werner Jurisch, Sérgio Bittencourt, José Antônio, Cosme;
Toninho, Grealdoo e Carlinhos (da técnica); Verinha, Cristina, Aillen e Chica; J.C. Mello, Egeu e Marcelinho; Dom
Bill, Roberto e Romero dos sanduíches; Sr. Ladimar e Mr. Good Adventure.
Em Brasília: Adonai Rocha, Paulinho Andrade, Elisa M. Costa, Jorge e Toninho Maya e Flora Valladares.
Fotos: Flávio Colker (cor) e Ico Ouro-Preto (sépia)
Projeto Gráfico: Fernanda Villa-Lobos
Coordenação Gráfica: Egeu Laus
URBANA LEGIO OMNIA VINCIT
Thanks to Ana Paula
This album is dedicated to Jorge, Glorinha e Breno.
Força Sempre.
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