Um Dia Perfeito

Revista Capricho - outubro de 1996.

Por: Fernando Luna.

O apartamento ficava num prédio baixo, em Ipanema, no Rio. Subi dois lances de escada e encontrei a porta aberta. "Oi, eu sou o Renato", apresentou-se, como se eu não estivesse lá justamente por ele ser o Renato. Parecia que eu estava entrando na casa da minha avó. Aquele sofazinho de pano, móveis antigos, a mesinha do telefone, o abajur. Era tudo, menos a casa de um roqueiro. E Renato Russo morava ali. Não é muito comum entrevistar um músico na sua própria casa. Entrevistas costumam acontecer em lugares menos impessoais. Um apartamento pode ser muito revelador. Logo na entrada, um monte de CDs jogados ao lado do aparelho de som. Para minha surpresa, encontrei discos de música erudita e óperas. No meio deles, o álbum do Foo Fighters ainda fechado. Começamos a conversar. Ele estava animado com o lançamento de Equilíbrio Distante. Falava rápido e se levantava toda hora. Fazia imitações, sempre a mesma vozinha esganiçada e hilária. Não parecia o cara sério que a gente via nas fotos dos discos. Se minha adolescência tivesse uma trilha sonora, várias faixas de Legião Urbana e Dois estariam nela. Por isso, fiquei mal com a notícia que li, dia 11 de outubro, em um jornal brasileiro na Internet (desde que vim morar em Londres, em junho, leio os jornais daí sem precisar sujar as mãos). "Renato Russo morreu na madrugada de hoje". Só. Os detalhes apareceriam nas edições do dia seguinte. Lembrei que, às vésperas do meu embarque uma amiga me deu uma fita da Legião. Remexi as gavetas até encontrar, mas não tinha sequer um walkman para ouvir as músicas. Aí me dei conta de que sabia todas de cor, comecei a cantar, baixinho, talvez com medo que o Renato Russo pudesse estar ouvindo.