Que país é este? (1987)
1978 - 1987



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Histórias da Legião Go
Que País é Este (2':54") Go
Conexão Amazônica (4':37") Go
Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você) (2':30") Go
Depois do Começo (3':13") Go
Química (2':20") Go
Eu Sei (3':07") Go
Faroeste Caboclo (9':03") Go
Angra Dos Reis (4':58") Go
Mais do Mesmo (3':20") Go
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Histórias da Legião

ESTE É UM REGISTRO DA MAIOR PARTE DAS CANÇÕES DO LEGIÃO URBANA NUNCA ANTES LANÇADAS EM DISCO, MAS JÁ CONHECIDAS ATRAVÉS DE APRESENTAÇÕES AO VIVO E GRAVAÇÕES PIRATAS. SÃO NOVE CANÇÕES EM VERSÃO ORIGINAL DE ESTÚDIO, QUE HOJE soariam deslocadas, por tudo que já passamos juntos, de dois anos pra cá. Não existe mais inocência e vai-se longe o tempo onde "Que País é Este" era um perigoso grito de rebeldia (1978): hoje resta a lembrança nostálgica de um tempo que dificilmente vai voltar. Era um tempo onde Freud e Jung ainda eram discutidos seriamente em mesas de bar onde a rota de drogas passava pela Amazônia e somente de lá para os grandes centros. Não se falava abertamente como hoje de tantas coisas, coisas que toda criança sabe hoje em dia, nem pelos jornais. Drummond estava vivo, John Lennon e Sid Vicious também. Nosso país iria crescer e mudar para melhor e todos acreditaram. Até aí morreu o Neves (trocadilho imperdoável, mas necessário) e cantar que "temos todo o tempo do mundo", porque "somos tão jovens" lembra um tempo distante, um tempo perdido mesmo. Muito mais ainda o inconformismo juvenil, por pura diversão, das canções do grupo Aborto Elétrico, origem de parte do repertório inicial da Legião Urbana, isto já quase cinco anos depois. As letras destas nove canções refletem uma ingenuidade adolescente mas só por terem sido escritas há nove anos atrás. A temática continua atual, às vezes até demais. "Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado" é de certa forma adolescente e ingênuo mas, depois de uma letra como "Índios", que trata do mesmo assunto, poderia até ser a mesma música, para onde ir? Há uma diferença de sete anos entre as duas e o que mudou? Parece até que queremos "vender todas as almas dos nossos índios num leilão" ainda, do jeito que as coisas vão.

QUE PAÍS É ESTE - Uma das marcas registradas da Legião Urbana junto com "Geração Coca-Cola", escrita em 1978 para o então Aborto Elétrico e, mais tarde, incorporada definitivamente ao repertório da Legião. Com seu ritmo tribal e seus três acordes, foi a música de abertura de virtualmente todas as apresentações ao vivo da banda, também por ser ideal para auxiliar na passagem do equilíbrio do PA (power amplification) e do som no palco. Seu refrão (com direito a ô, ô, ô, ô e participação do público) é simples, direto e eficaz. Nunca foi gravada antes porque sempre havia a esperança de que algo iria realmente mudar no país, tornando-se então a música totalmente obsoleta. Isto não acontece e ainda é possível se fazer a pergunta do título, sem erros. Jimmy Page dizia que o bom do rock é que não se aprende na escola. Outros atacam: "para ser roqueiro basta pendurar uma guitarra no pescoço e sair por aí, fazendo a música mais primária do mundo." Oras, mas é este mesmo o espírito da coisa! O Ataque continua: "O rock é isso mesmo, um bate-estaca, a coisa mais elementar que existe, mais primitiva, menos inventiva que pode acontecer. O rock não é novidade, é uma imposição, é uma ditadura. É um sistema estético com a intenção de embotar a cabeça do jovem. Sim, porque se você fica com aquele bate-estaca na cabeça o dia inteiro, você se esquece da realidade que o cerca, de coisas realmente importantes." Dois apartes aqui. Realmente rock pode não ser novidade já que é uma forma musical que nasce em 1955, não tem mais de trinta anos, portanto. Bate-estaca ou não, juvenil ou não, preste atenção à letra de "Que País é Este". Não nos parece coisa de gente que esqueceu a realidade que a cerca. Comparar rock com ditadura? Que país é este? Quem é Jimmy Page?

CONEXÃO AMAZÔNICA - Mais bate-estaca. E dos bons. Assim como "Que País é Este" abriu caminho para temas mais tarde utilizados nas letras do grupo (principalmente no primeiro LP), "Conexão Amazônica", de 1980, definiu a sonoridade característica de grande parte das músicas da Legião Urbana: um ritmo esparso, quase marcial, repetido como um mantra elétrico sobre o qual é feito uma variação vocal e instrumental (guitarras e efeitos diversos). Bate-estaca! Esta continua proibida até hoje pela censura por causa da temática. Lembrando que discutir Freud e Jung em mesas de bar acontecia realmente naqueles tempos (pelo menos em Brasília) e que o tema da música está hoje em todos os jornais e, pasmem, até nas novelas! Gente, até em chamadas no horário infantil (aquele anúncio do pó). Bem, alimento pra cabeça nunca vai matar a fome de ninguém, mesmo. E daqui passamos para:

TÉDIO (COM UM T BEM GRANDE PRA VOCÊ) - A terceira música da época em que Renato Russo tinha o Aborto Elétrico (muda o nome desse conjunto, meu filho). Sempre quisemos ter uma música entre parênteses. Algo como "(I can't Get No) Satisfaction" ou então "(Baby, I'm On) Fire". Faz parte da primeira leva: é de 1979 e totalmente boba. Gravada em primeiro take é ótima para festas e uma espécie de hino dos punks de Brasília naquela época, Os mais modernos podem cantar Césio com um C, se desejarem. Só não foi incluída no primeiro disco porque achamos que deveríamos falar sobre coisas mais sérias. Soldados, por exemplo. Na verdade foi porque o Biquíni Cavadão já tinha gravado uma música com o mesmo nome.

DEPOIS DO COMEÇO - Nosso ska, na época do revival Two-Tone, 1982 ou 83. A letra contém diversas mensagens em código, ideal para quem gosta de descobrir significados secretos em letras de música. Cuidado entretanto. Interpretar estes versos provavelmente dirá mais sobre quem tenta decifrá-los do que propriamente a música em si. É conhecida através de uma gravação pirata de um show em Santos em 1983, que circula também em Brasília e no sul do país.

QUÍMICA - Também gravada em primeiro take (baixo, guitarra e bateria de uma só vez), está aqui em uma versão diferente do que foi incluída nas cópias cassetes do segundo LP, Grito de guerra dos vestibulandos, escrita em 1981 para violão e voz.

EU SEI - Duas grandes redes de rádio transmitiram extensivamente uma gravação (pirata, por sinal) das apresentações de fim de ano em Brasília, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional. Quando é hora do set acústico, qual não foi a surpresa ao termos grande parte do público clamando por "sexo verba, sexo verbal"! Esta canção, antes conhecida por "18 e 21" aqui aparece com seu título definitivo. Das nove canções esta, talvez seja a que esteja mais próxima do espírito do segundo LP. Foi escrita em 1982, depois do Aborto Elétrico, pouco antes do aparecimento do Legião Urbana. Somente três canções não foram incluídas nesta antologia: "A Canção do Senhor da Guerra", por ser muito parecida com outras canções acústicas (a versão elétrica nunca foi aprovada pela banda), "O Grande Inverno da Rússia", por ser experimental demais e "Dado Viciado", para evitar confusões com o guitarrista Dado Villa-Lobos, que não é o personagem citado na canção. Isto permitiu espaço para a inclusão de

FAROESTE CABOCLO - Com duração de nove minutos, apresentada pela primeira vez (sob vaias iniciais dos punks) no Morro da Urca em 1983. A música é de 1979, anterior a "Eduardo e Mônica", seguindo a mesma linha: uma estória completa com personagens, começo, meio e fim. A letra (como todas as outras do disco) permanece no original, rimas pobres e tudo.

ANGRA DOS REIS / MAIS DO MESMO - Estas foram feitas logo após a gravação do "Dois". As letras são as mais recentes entre todas aqui. Este disco junto aos outros dois LP completa o registro da Legião Urbana em sua atual formação.
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Que País É Este
(Renato Russo)

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituicão
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é este
No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense
Mato Grosso, nas Geraes e no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso mas o sangue anda solto
Manchando os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é este
Terceiro mundo se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios em um leilão
Que país é este
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Conexão Amazônica
(Renato Russo/Felipe Lemos)

Estou cansado de ouvir você falar
Em Freud, Jung, Engels e Marx
Intrigas intelectuais
Rodando em mesa de bar
Yeah, yeah, yeah,
O que eu quero eu não tenho
O que eu não tenho eu quero ter
Não posso ter o que eu quero
E acho que isso não tem nada a ver
Yeah, yeah, yeah,
Os tambores da selva já começaram a rufar
A cocaína não vai chegar
Conexão amazônica está interompida
Yeah, yeah, yeah,
E você quer ficar maluco sem dinheiro e acha que está tudo bem
Mas alimento pra cabeça nunca vai matar a fome de ninguém
Uma peregrinação involuntária talvez fosse solução
Auto-exílio nada mais é do que ter seu coração na solidão
Yeah, yeah, yeah,
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Tédio (Com um T bem grande pra você)
(Renato Russo)

Moramos na cidade, também o presidente
E todos vão fingindo viver decentemente
Só que não pretendo ser tão decadente não
Tédio com um T bem grande pra você

Andar a pé na chuva, às vezes eu me amarro
Não tenho gasolina, também não tenho carro
Também não tenho nada de interessante pra fazer
Tédio com um T bem grande pra você

Se eu não faço nada, não fico satisfeito
Eu durmo o dia inteiro e aí não é direito
Porque quando escurece, só estou a fim de aprontar
Tédio com um T bem grande pra você
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Depois do Começo
(Renato Russo)

Vamos deixar as janelas abertas
Deixar o equilíbrio ir embora
Cair como um saxofone na calçada
Amarrar um fio de cobre no pescoço
Acender um intervalo pelo filtro
Usar um extintor como lençol
Jogar pólo-aquático na cama
Ficar deslizando pelo teto
Da nossa casa cega e medieval
Cantar canções em línguas estranhas
Retalhar as cortinas desarmadas
Com a faca surda que a fé sujou
Desarmar os brinquedos indecentes
E a indecência pura dos retratos no salão
Vamos beber livros e mastigar tapetes
Catar pontas de cigarros nas paredes
Abrir a geladeira e deixar o vento sair
Cuspir um dia qualquer no futuro
De quem já desapareceu
Deus, Deus, somos todos ateus
Vamos cortar os cabelos do príncipe
E entregá-los a um deus plebeu
E depois do começo
O que vier vai começar a ser o fim.
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Química
(Renato Russo)

Estou trancado em casa e não posso sair
Papai já disse, tenho que passar
Nem música eu posso mais ouvir
E assim não posso nem me concentrar
Não saco nada de Física
Literatura ou Gramática
Só gosto de Educação Sexual
E eu odeio Química
Não posso nem tentar me divertir
O tempo inteiro eu tenho que estudar
Fico só pensando se vou conseguir
Passar na porra do vestibular
Chegou a nova leva de aprendizes
Chegou a vez do nosso ritual
E se você quiser entrar na tribo
Aqui no nosso Belsen tropical
Ter carro do ano, TV a cores, pagar impostos, ter pistolão
Ter filho na escola, férias na Europa, conta bancária, comprar feijão
Ser reponsável, cristão convicto, cidadão modelo, burguês padrão
Você tem que passar no vestibular.
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Eu Sei
(Renato Russo)

Sexo verbal não faz meu estilo
Palavras são erros, e os erros são seus
Não quero lembrar que eu erro também
Um dia pretendo tentar descobrir
Porque é mais forte quem sabe mentir
Não quero lembrar que eu minto também
Eu sei
Feche a porta do seu quarto
Porque se toca o telefone pode ser alguém
Com quem você quer falar
Por horas e horas e horas
A noite acabou, talvez tenhamos que fugir sem você
Mas não, não vá agora, quero honras e promessas
Lembranças e histórias

Somos pássaro novo longe do ninho

Eu sei
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Faroeste Caboclo
(Renato Russo)

- NÃO tinha medo o tal João de Santo Cristo
Era o que todos diziam quando ele se perdeu.
Deixou pra trás todo o marasmo da fazenda
Só pra sentir no seu sangue o ódio que Jesus lhe deu.
Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de um soldado o pai morreu
Era o terror da cercania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu.
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar.
Sentia mesmo que era mesmo diferente
E sentia que aquilo ali não era o seu lugar
Ele queria sair para ver o mar
E as coisas que ele via na televisão
Juntou dinheiro para poder viajar
E de escolha própria, escolheu a solidão
Comia todas as menininhas da cidade
De tanto brincar de médico, aos doze era professor
Aos quinze, foi mandado para o reformatório
Onde aumentou seu ódio diante de tanto terror.
Não entendia como a vida funcionava -
Descriminação por causa da sua classe ou sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador
E lá chegando foi tomar um cafezinho
E encontrou um boiadeiro com quem foi falar
E o boiadeiro tinha uma passagem e ia perder a viagem
Mas João foi lhe salvar
Dizia ele: - Estou indo pra Brasília
Neste país lugar melhor não há.
Estou precisando visitar a minha filha
Então fico aqui e você vai no meu lugar
E João aceitou sua proposta e num ônibus entrou no Planalto Central
Ele ficou bestificado com a cidade
Saindo da rodoviária, viu as luzes de Natal.
- Meu Deus, mas que cidade linda,
No ano-novo eu começo a trabalhar.
Cortar madeira, aprendiz de carpinteiro
Ganhava três mil por mês em Taguatinga.
Na sexta-feira ia pra zona da cidade
Gastar todo o seu dinheiro de rapaz trabalhador
E conhecia muita gente interessante
Até um neto bastardo de seu bisavô:
Um peruano que vivia na Bolívia
E muitas coisas trazia de lá
Seu nome era Pablo e ele dizia
Que um negócio ele ia começar.
E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
Mas ele não queria mais conversa e decidiu que,
Com Pablo, ele ia se virar
Elaborou mais uma vez seu plano santo
E, sem ser crucificado, a plantação foi começar.
Logo logo os malucos da cidade souberam da novidade:
- Tem bagulho bom aí!
E João de Santo Cristo ficou rico
E acabou com todos os traficantes dali.
Fez amigos, frequentava a Asa Norte
E ia pra festa de rock, pra se libertar
Mas de repente
Sob uma má influência dos boyzinhos da cidade
Começou a roubar.
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
- Vocês vão ver, eu vou pegar vocês.
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal.
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general.
Foi quando conheceu uma menina
E de todos os pecados ele se arrependeu.
- Maria Lúcia era uma menina linda
E o coração dele
Pra ela o Santo Cristo prometeu
Ele dizia que queria se casar
E carpinteiro ele voltou a ser
Maria Lúcia pra sempre vou te amar
E um filho com você eu quero ter.
O tempo passa e um dia vem à porta um senhor
De alta classe com dinheiro na mão.
E ele faz uma proposta indecorosa e diz que espera uma resposta
Uma resposta de João
Não boto bomba em banca de jornal nem em colégio de criança
Isso eu não faço não
E não protejo general de dez estrelas, que fica atrás da mesa
Com o cú na mão
E é melhor o senhor sair da minha casa
Nunca brinque com um Peixes com ascendente Escorpião.
Mas antes de sair, com ódio no olhar, o velho disse:
- Você perdeu a sua vida, meu irmão.
Você perdeu a sua vida meu irmão. Você perdeu a sua vida meu irmão
Essas palavras vão entrar no coração
E eu vou sofrer as consequências como um cão
Não é que Santo Cristo estava certo
E seu futuro era incerto e ele não foi trabalhar
Se mebebedou e no meio da bebedeira descobriu que tinha outro
Trabalhando em seu lugar
Falou com pablo que queria um parceiro
E também tinha dinheiro e queria se armar
Pablo trazia contrabando da Bolívia e Santo Cristo revendia em Planaltina.
Mas acontece que um tal de Jeremias, traficante de renome
Apareceu pro lá
Ficou sabendo dos planos de Santo Cristo
E decidiu que, com João ele ia acabar
Mas Pablo trouxe uma Winchester-22
E Santo Cristo já sabia atirar
E decidiu usar a arma só depois
Que o Jeremias começasse a brigar
(O Jeremias, maconheiro sem-vergonha, organizou a Rockonha
E fez todo mundo dançar.)
Desvirginava mocinhas inocentes
E dizia que era crente mas não sabia rezar.
E Santo Cristo há muito não ia pra casa
E a saudade começou a apertar
- Eu vou embora, eu vou ver Maria Lúcia
Já está em tempo da gente se casar.
Chegando em casa então ele chorou
E pro inferno ele foi pela segunda vez.
Com maria Lúcia Jeremias se casou
E um filho nela ele fez.
Santo Cristo era só ódio por dentro e então o Jeremias pra um duelo ele chamou
Amanhã às duas horas na Ceilândia, em frente ao lote 14, é pra lá que eu vou
E você pode escolher as suas armas que eu acabo mesmo com você, seu porco traidor
E mato também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurei o meu amor
Santo Cristo não sabia o que fazer
Quando viu o repórte na televisão
Que deu notícia do duelo na TV
Dizendo a hora e o local e a razão.
No sábado então, às duas horas, todo o povo
Sem demora foi lá só pra assistir
Um homem que atirava pelas costas e acertou o Santo Cristo
E começou a sorrir.
Sentindo o sangue na garganta,
João olhou pras bandeirinhas e pro povo a aplaudir
E olhou pro sorveteiro e pras câmeras e
A gente da TV que filmava tudo ali.
E se lembrou de quando era uma criança e de tudo que vivera até ali
E decidiu entrar de vez naquela dança
- Se a via-crucis virou circo, estou aqui.
E nisso o sol cegou seus olhos e então Maria Lúcia ele reconheceu
Ela trazia a Winchester-22
A arma que seu primo Pablo lhe deu.
Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é.
E não atiro pelas costas não.
Olha pra cá filha-da-puta, sem-vergonha,
Dá uma olhada no meu sangue
E vem sentir o teu perdão.
E Santo Cristo com a Winchester-22
Deu cinco tiros no bandido traidor
Maria Lúcia se arrependeu depois
E morreu junto com João, seu protetor.
E o povo declarava que João de Santo Cristo era santo porque sabia morrer
E a alta burguesia da cidade não acreditou na estória que eles viram na TV
E João não conseguiu o que queria quando veio pra Brasília, com o diabo ter
Ele queria era falar pro presidente,
Pra ajudar toda essa gente
Que só faz sofrer.
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Angra dos Reis
(Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)

DEIXA, se fosse sempre assim quente
Deita aqui perto de mim
Tem dias em que tudo está em paz
E agora todos os dias são iguais
Se fosse só sentir saudade
Mas tem sempre algo mais
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
Mas não venha me roubar
Vamos brincar perto da usina
Deixa pra lá, a angra é dos reis
Porque se explicar se não existe perigo?
Senti seu coração perfeito batendo à toa
E isso dói
Seja como for
É uma dor que dói no peito
Pode rir agora que estou sozinho
Mas não venha me roubar
Vai ver que não é nada disso
Vai ver que já não sei quem sou
Vai ver que nunca fui o mesmo
A culpa é toda sua e nunca foi
Mesmo se as estrelas começassem a cair
E a luz queimasse tudo ao redor
E fosse o fim chegando cedo
E você visse nosso corpo em chamas
Deixa pra lá.
Quando as estrelas começarem a cair
Me diz, me diz pra onde a gente vai fugir?
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Mais do Mesmo
(Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Renato Rocha/Marcelo Bonfá)

EI menino branco o que é que você faz aqui
Subindo o morro pra tentar se divertir
Mas já disse que não tem
E você ainda quer mais
Por que você não me deixa em paz?
Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim
E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?
Quem vai tomar conta dos doentes?
E quando tem chacina de adolescentes
Como é que você se sente?
Em vez de luz tem tiroteio no fim do túnel.
Sempre mais do mesmo
Não era isso que você queria ouvir?
Bondade sua me explicar com tanta determinação
Exatamente o que eu sinto, como penso e como sou
Eu realmente não sabia que eu pensava assim
E agora você quer um retrato do país
Mas queimaram o filme
E enquanto isso, na enfermaria
Todos os doentes estão cantando sucessos populares.
(e todos os índios foram mortos).
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Ficha técnica

Produzido por Mayrton Bahia
Outubro de 1987, EMI-Odeon
Direção Artística: Jorge Davidson
Direção de Produção e Produção Executiva: Mayrton Bahia
Técnicos de Gravação: Sérgio Bittencourt e Renato Luiz
Mixagem: Sérgio Bittencourt, Renato Luiz e Mayrton Bahia
Assistente de Estúdio: Jorge Brum
P 1987 EMI-Odeon - Brasil
Faixa 2 editada por EMI/Phonogram
Para todos que nos escreveram e que, por vezes, não receberam respostas, para o pessoal
do OMNIA VINCIT, para o Sidney (RS), Rodrigo (Santos), Suzana (Lins-RJ) e todos os nossos
amigos dedicamos este disco.
Foto da Capa: Ricardo Junqueira
Fotos do Encarte: Ricardo Junqueira e Marcelo Benzaquém
Ilustrações: Marcelo Bonfá
Projeto Gráfico: Fernanda Villa-Lobos
Coordenação Gráfica: Egeu Laus
URBANA LEGIO OMNIA VINCIT
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