Ausência de velório, ausência de enterro, ausência de corpo. Renato Manfredini Jr. reservou seu derradeiro não para os ritos de despedida. Os anos haverão de criar uma mitologia a respeito. Renato Russo não morreu, dirão alguns, como já disseram de tantos outros. Afinal, Renato não estourou a cabeça como Kurt Cobain nem expôs sua luta perdida como Cazuza. Renato apenas morreu sua morte privada.

Os fãs haverão de sentir a falta de enterro, velório, cadáver... mas essa foi exatamente a opção de Renato. Na televisão, não haverá imagens senão do passado, dos clips do Legião ou de sua carreira solo. Algumas entrevistas lá e cá com amigos, músicos, celebridades. E de resto, a Legião Urbana continuará prevalecendo. Como sempre prevaleceu.

Renato Manfredini Jr. nasceu há 36 anos no Rio de Janeiro. Sua carreira musical começou em 1977 com o Aborto Elétrico, embrião não apenas da Legião, mas também do Capital Inicial e do Plebe Rude. Depois que o Aborto se desfez, Renato se tornou o Trovador Solitário, cantando sozinho composições que anos depois marcariam época como "Eduardo e Mônica" e "Química".

A Legião nasceu em 1983. Renato Manfredini então já se transformara em Russo, numa referência aos filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russel. Junto com o baterista Marcelo Bonfá e o guitarrista Dado Villa-Lobos, o baixista e letrista Renato Russo começava a trilhar sua estrada.

E já em 1983 a Legião começou a acontecer. Seu primeiro show célebre ocorreu no Circo Voador no dia 23 de julho. Em 84, com um empurrãozinho de Herbert Vianna, veio o primeiro LP. Pouca gente sabia nessa época que os versos de "Química", que Herbert Vianna se esgoelava para cantar em "Cinema mudo" acompanhado pelos vestibulandos de então, tinham a marca de Renato Russo.

Estranho pensar hoje, dez anos depois, que o Rock in Rio I teve a presença de Rita Lee, Erasmo Carlos e não contou com o Legião. Naquela época, porém, o Legião ainda não vingara. Muito pelo contrário, aliás, o Rock in Rio congelara o disco "Legião Urbana" por uns bons seis meses. Mas, por outro lado, ajudou a catapultá-lo depois. Foi no embalo do festival que "Será?" invadiu as rádios.

Pouco antes da gravação de "Legião Urbana", Renato tentara o suicídio cortando os pulsos e perdera parte dos movimentos nas mãos. Isso provocou a entrada de um quarto integrante no grupo, o baixista Renato Rocha, o "Negrette".

"Será" foi seguida por "Teorema" que foi seguida por "Ainda é cedo" que foi seguida por "Soldados". Quando a Legião saiu do estúdio com o primoroso "Dois", para muitos o melhor disco do rock nacional, as rádios ainda não tinham esgotado o primeiro LP. "Dois", por sua vez, foi intensamente explorado e representou o salto do Legião, e de Renato, para o mega-estrelato.

"Tempo perdido", "Andrea Doria", "Índios", "Metrópole", "Fábrica", "Quase sem querer" e sobretudo "Eduardo e Mônica" saíram do vinil (na época, CD era uma sigla sem significado) direto para o imaginário daquela juventude pós-ditadura que começava a entrar nas universidades. Renato começava a ensaiar seu adeus ao mundo público, que seria sacramentado anos mais tarde em "As quatro estações".

Em 1986, sob pressão da gravadora, o grupo fez uma antologia de velhas canções, quase todas da fase Aborto Elétrico de Renato, e lançou "Que país é este?". O drama é que, mesmo estas antigas canções, eram desesperadamente boas.

João do Santo Cristo enfiou nove minutos de "Faroeste Caboclo" pela goela das FMs. "Que país é este?", "Tédio com um T bem grande pra você", "Angra dos Reis", "Eu sei"... novamente a Legião entrava de sola e não conseguia ficar um dia fora da sintonia nacional. Mas o clima das canções do disco não retratava o que se passava com a Legião, ou antes, o que se passava com a cabeça pensante do grupo.

Renato Russo estava tentando conviver com a fama, e estava tendo problemas. O álcool, companheiro de sempre, se tornara mais assíduo. As drogas idem. E as letras de Renato começaram a caminhar em outra direção.

"As quatro estações" é possivelmente o ponto mais alto da escalada da Legião. Quando "Há tempos" começou a tocar nos rádios em 1989, os fãs perceberam que algo havia mudado. Como assim, Renato Russo cantando algo como "Pais e Filhos"? Ou assumindo sua bissexualidade, ou pan-sexualidade, na belíssima "Meninos e meninas". O álbum trazia canções primorosas. "Quando o sol bater na janela do teu quarto", "Sete cidades", "Se fiquei esperando o meu amor passar", "Monte Castelo"... Renato se dava ao luxo de misturar Camões com o apóstolo São Paulo e ainda fazer boa música. Ou melhor, excelente música.

"As quatro estações" vendeu como água. De cara, foram 450 mil cópias, tiragem que dobraria anos depois e hoje chega a marca de 1,1 milhão, igualando o recorde de "Dois".

A partir do disco, e dos incidentes em Brasília, em 1988, quando um doente mental invadiu o palco, se pendurou nas costas de Reanto e a Legião foi acusada de incitar a violência, o grupo começou a se afastar dos palcos. Em 1990, no mesmo dia da morte de Cazuza, eles deram talvez seu show mais memorável, no areal do Jockey Club Brasileiro.

O Legião ainda encararia o Metropolitan, em 1994, no lançamento de "O descobrimento do Brasil", um disco que pretendia recuperar a pouca popularidade do excelente "V", que fincava o grupo na nova fase, ou Renato na nova fase, letras maravilhosas, "vento no litoral", "Serenissíma", "O teatro dos Vampiros" e tingidas com uma nostalgia que passou a ser a marca das canções de Renato. "Descobrimento do Brasil" trazia a música de trabalho, "Perfeição", de volta o melhor Renato Russo político. Baladas muito boas como "Vinte e nove", "os Barcos", "Giz" ou "Só por hoje".

Em 1994, Renato lançaria seu primeiro trabalho solo, o excelente "The Stonewall Celebration Concert", cantado em inglês. Em 1995, ele repetiria a dose, desta vez em italiano, com "Equilíbrio distante". Os rumores dizendo que o cantor era portador do vírus da AIDS começaram a ficar mais freqüentes. E Renato Russo começou a ficar cada vez mais recluso.

Mas seu adeus viria mesmo com o Legião Urbana, no triste "A Tempestade ou o Livro dos Dias", o CD-quase-um-libretto, que mais uma vez, tal como "Dois", era para ser duplo mas não foi. A marcha fúnebre de Renato Russo está tocando nas rádios, seja nos versos de "A via láctea" ("quando tudo está perdido/sempre existe uma luz") ou "1º de julho" ("Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher..."). Até porque Renato escolheu morrer sem adeus. Recusou fãs chorando sobre o caixão, celebridades transitanto com olhar compungido, aquela fila anônima engarrafada no cemitério... recusou, em suma, seu último palco.

Assim, restará aos jornais colher depoimentos e falar do passado. As Redes de TV terão de mostrar clipes e trechos de Renato e do Legião. A gravadora ainda deverá lançar algum material inédito, até porque o Legião se esmerou em quase lançar discos duplos.

Mas isso tudo importa menos. A última mensagem de Renato Manfredini Jr. é exatamente sua morte privada. A imagem que ele deixa, ou fez questão de deixar, é a de um ídolo que literalmente se transforma em cinzas. Como ele mesmo disse: "Quero que as pessoas que se preocupam comigo se danem, quero que elas se preocupem com a minha música". A Legião Urbana, enfim, sempre prevalece.