Os animais nos métodos de adivinhação

Métodos de adivinhação são extremamente freqüentes nas sociedades tribais em todos os continentes. São constituintes importantes na cosmologia destes povos e portanto seu estudo torna-se uma das maneiras mais eficientes de apreensão do universo cultural a que pertencem. São o "fato social total" de Durkheim, ou seja, um fato social cujo estudo revela a totalidade da cultura. Seu simbolismo é muito rico e se apoia em materiais os mais diversos que vão de objetos manumaturados, plantas e buzios a partes de animais ou animais inteiros e seus comportamentos em circunstâncias específicas: entre os índios das Américas é comum a interpretação do comportamento dos pássaros - alguns remanescentes passaram para as sociedades complexas como presságios, aviso de chuva etc, comum entre nós; na África, um dos continentes mais ricos em métodos de adivinhação, o uso de animais é mais frequente do que em outras regiões. A adivinhação é uma constante, por exemplo, entre as culturas Bantu da África Central - sobretudo nas etnias Cokwe, Lwena, Lucazi, Lunda, Ndembu, Ovimbundu, Ngangela, Lwimbi, Nyemba e Rotse - veremos alguns exemplos da etnia Cokwe de Angola - o "ngombo" ou arte da prática adivinhatória

Os Cokwe distinguem três categorias de especialistas que podem intervir em seus problemas: o ADIVINHO, o CURANDEIRO e o FEITICEIRO. O primeiro interpreta os fatos primariamente em função de forças positivas; o curandeiro é um prático que tem grande conhecimento do poder curativo de plantas e de como usá-las ritualisticamente, e por fim, o feiticeiro lida com forças negativas que ele manipula contra suas vítimas.

O adivinho lida diretamente com o espírito dos ancestrais, principalmente o dos grandes chefes fundadores dos grupos. Estes espíritos são venerados de diversas maneiras sendo a mais característica o exercício de uma atividade profissional, ou seja, um indivíduo consagrado a um espírito deverá exercer a atividade profissional que o espírito exercia. O adivinho é um dos maiores exemplos disso: exerce esta atividade em honra do espírito ancestral a que é consagrado e o exercício mesmo desta atividade é seu maior ato de veneração. Os feiticeiros, lidando com as forças do mal, são a causa das doenças e uma constante ameaça à população. Alguns autores chegam a afirmar que a atividade do adivinho é comparável à de um detetive psicológico que deve pesquisar e descobrir as feitiçarias. Isto dá um grande status ao adivinho e no caso dos Cokwe, este status é reforçado pelo fato de que normalmente o adivinho é o próprio chefe da aldeia. A coragem de denunciar o feiticeiro demanda uma boa dose de prestígio assim como grande conhecimento das forças ocultas em ação. Para isto a iniciação tem papel fundamental: somente após uma severa iniciação o adivinho será reconhecido. A iniciação consiste de sacrifícios aos ancestrais e meses de aprendizado com o adivinho iniciador. Ngombo, como é conhecida esta arte na região, significa tanto o cesto usado na adivinhação quanto o espírito do ancestral que preside os atos de adivinhação, que ajuda o adivinho a adivinhar. Vários símbolos são usados neste cesto. Símbolos animais são abundantes: o adivinho escolhe certas espécies animais e relaciona seus comportamentos com os problemas concretos trazidos pelos clientes. A razão da escolha de certas espécies é difícil de explicar. Muitas vezes, aos animais reais são atribuidos traços que os torna fantásticos ou monstruosos, portanto simbólicos e adequados à interpretação adivinhatória. Existem também as restrições que envolvem animais, principalmente os que fazem parte do grupo usado nas adivinhações. Por exemplo: quando um caçador caça um leão (mwanangana na adivinhação), uma pantera (cisenga) ou um tamanduá (njimbo), lhes são interditadas as relações sexuais por três dias porque estes animais "são como pessoas" - o leão e a pantera simbolizam o chefe da terra e o tamanduá, que habita em buracos na terra, são como mortos, isto é, seres humanos.

Partes de animais usadas nos cestos adivinhatórios

- pequeno chifre de antílope - o movimento balanceado com relação a pontos brancos e vermelhos pintados no cesto, respondem sim/não (bem/mal) a questões formuladas na sessão.

- pata dianteira de macaco - sua aparição é um bom presságio, o problema vai se resolver.

- pangolim - (um animal parecido com um tatu) - usado para males femininos.

- pata de tamanduá - saímbolo do passado, tudo o que está perdido no tempo.

- espinho de porco-espinho - sua aparição na borda do cesto significa algo muito negativo.

- "o espírito do caçador" - caçar é uma atividade muito valorizada e particularmente perigosa, por isso todas as suas interdições rituais. Aqui é usado o dente de um animal abatido em caçada, envolto em tecido vermelho. A aparição deste dente na borda do cesto significa exigências do espírito ancestral quanto ao exercício da caça.

- garra ou unha da águia-real (a maior águia africana) - indica que o problema é causado por feitiçaria.

- pata de um animal chamado kambango - indica manifestação do mal

- pena vermelha de um pássaro chamado nduwa - problemas relacionados com os mortos.

- carapaça da tartaruga - proteção ao ato adivinhatório.

- pata de lagarto das chuvas - denuncia amores secretos.

- cabeça de camaleão - doenças causadas por feitiçaria.

- cabeça de serpente - o mal foi causado por uma cobra enviada por um feiticeiro.

- buzio (carapaça de animal marinho) - usado em questões de gravidez/fecundidade.

- são usados ossos, chifres e garras de vários outros animais.

Todos estes elementos são colocados no cesto adivinhatório (um pequeno cesto de palha - quase como um chapéu de palha, com o fundo decorado com pele de gato selvagem ou outros animais, às vezes com casco de tartaruga ou com cabaça). Na sessão, este cesto é "sacudido" e os elementos que aparecem por cima são interpretados. O cesto é sacudido várias vezes de acordo com o diálogo entre o adivinho e o cliente.

Texto de Autoria do Mago Daniel

 

 

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