A Escolha de Karna

Ora, durante esse décimo terceiro ano, Bharata, Indra, nos céus, decidiu tomar a armadura e os brincos de Karna. Mas Surya, o Senhor Sol, descobriu sua intenção, e avisou Karna, que dormia em Champa, num sonho.

O Olho do Mundo Todo disse a seu filho:

- Para salvar Arjuna, Indra virá a você disfarçado de brahmane para lhe tomar a armadura e os adereços que são seus desde o nascimento. Com estes, você nunca há de ser derrotado. Não os abandone jamais, pois assim estaria encurtando sua vida. Recuse-se a atendê-lo quando ele vier, faça com que leve outra coisa no lugar, pois ele não pode insistir em tomar de você uma parte do seu próprio corpo.

Mas, em seu sonho, Karna respondeu:

- Se ele vier, eu lhe darei o que pedir. Tudo o que me

é pedido eu dou, em nome da honra. E este gesto, em si, estende a vida neste mundo e a prepara para o próximo.

Não hei de salvar minha vida através de mesquinharia, pois a honra me alimenta como uma mãe, e como a uma mãe eu a protegerei, mesmo ofertando meu corpo no sacrifício da batalha.

O Senhor Sol disse:

- Não faça nada que lhe seja danoso. A honra ama, acima de tudo, tomar vidas; contudo, quando estiver morto, você dará a ela tanta importância quanto à guirlanda de flo-res em torno do pescoço do seu cadáver a arder na pira. Se quiser derrotar Arjuna, guarde as minhas palavras.

- Senhor do Dia - disse Karna -, a quem quero mais do que a mim mesmo, posso enfrentar Arjuna com ou sem armadura. Você veio e disse-me estas coisas, pensando:

"Karna não conhece outro deus nos céus". E por isso não renderei minha armadura a Indra sem receber algo em troca. Quanto ao resto, peço que me perdoe.

- Você busca também a fama - disse Surya -, e a alcançará - e esvaiu-se do sonho de Karna.

No dia seguinte, sentado de manhã ao ar livre, Karna contou todo o seu sonho ao Sol, e Surya exclamou, sorrin-do: - Assim é!

Ao meio-dia surgiu um velho e bondoso brahmane. Suas roupas, embora muito gastas, eram imaculadas; seus cabelos brancos, elegantemente penteados; seus olhos, límpidos e cristalinos. Olhou para Karna e disse: - Rei Anga, dê-me.

- Bem-vindo seja - disse Karna, ajoelhando-se ao sol. - Cidades e todo o seu gado, um colar de ouro, lindas virgens, o que quer receber?

Majestade, dê tais coisas a quem as pede - respondeu o brahmane. - Mas, para mim, arranque a armadura e os brincos, Maharaja.

- Leve, ao invés, mansões senhoriais e muitos prados e campos.

- Não quero nada disso.

- Não posso dar-lhe o que me pede - disse Karna. Leve, ao invés, o reino todo da Terra inteira.

- Não.

- Não quer mais nada?

- Nada.

Karna riu:

- Eu deveria estar recebendo dádivas de Indra, e não dando-as a ele! Não tem vergonha, Senhor, de fingir-se de pobre e mendigar as coisas?

O Senhor do Trovão sorriu.

- Faço isso para aumentar sua fama!

- Dê-me, ao menos, algo seu em troca; do contrário, pode voltar como veio.

- Não há nada que o sol não possa ter, disse Indra. Diga-me o que gostaria de ter.

- Senhor dos Deuses, dizem que possui uma lança

infalível que jamais deixa sua mão sem matar aquele a quem é atirada. É verdade? Essa lança é realmente assim?

- É verdade, cada palavra, assim como as disse.

- Arrancarei fora minha armadura por essa lança.

Indra pensou na arma e ela surgiu em sua mão. Era maior que um homem, provida de asas que fulguravam, e mais afiada que as palavras.

- Quando lanço esta arma - disse Indra, - ela retorna às minhas mãos manchada com o sangue do inimigo. Mas, se a atirar quando sua vida não correr grande perigo, ela haverá de se voltar contra você.

E assim, com a espada, Karna arrancou fora sua armadura e seus brincos e entregou-os, gotejando sangue, ao Senhor dos Deuses, em troca da Lança de Indra. No corpo de Karna nenhuma cicatriz resultou desses ferimentos.


 

 

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